Balé e Moda: diálogo elegante ou um passo para trás?

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Por Ana Paula Barcellos

Já tem um tempo que a estética do balé voltou a aparecer com mais força no mundo da moda, preenchendo passarelas e vitrines com tule, fitas de cetim e tons pastéis. Sua expressão mais marcante, o modismo (ou micro trend) “balletcore“, romantiza de forma mais intensa a graça etérea das bailarinas.

Mas, é preciso lembrar, uma tendência de fato não impacta apenas a forma como nos vestimos, elas são um reflexo do momento histórico, cultural e político que vivemos, e costumam trazer ideias e ideais sob suas costuras. Assim, o próprio balletcore, sob sua superfície impecável, esconde um diálogo complexo com o conservadorismo contemporâneo. À medida que grifes importantes como Miu Miu e Simone Rocha adotam o fascínio atemporal do balé, a tendência acaba por refletir mudanças sociais em direção a um tradicionalismo.

Balé e Moda: Um diálogo histórico

A influência do balé na moda não é novidade. Em meados do século XX, por exemplo, estilistas como Christian Dior e Yves Saint Laurent se inspiraram nas silhuetas estruturadas e nos toques românticos da dança, incorporando sua elegância à alta-costura. O volume do tutu e a simplicidade do collant tornaram-se símbolos da feminilidade refinada (lembram da Audrey Hepburn, representante desses símbolos no cinema estadunidense?).

O balé e a moda sempre tiveram um diálago forte. Mas a nova trend, o Balletcore, revisita essa influência dentro do conservadorismo contemporâneo, que indicam mudanças sociais em direção ao tradicionalismo
Foto: Pinterest

Hoje, vemos esse renascimento como uma busca ao retorno do que se considerava ideal para as mulheres, como se buscassem encaixar os 1950 nos 2020. Em uma era marcada pela polarização política e pela nostalgia cultural, a ênfase do balletcore na suavidade e na modéstia faz coro com uma onda conservadora maior que defende “valores tradicionais”.

O boom do balletcore

As coleções mais recentes evidenciam essa conexão há anos alguns. Na coleção Primavera/Verão 2023, a grife Miu Miu apresentou saias transparentes e sapatilhas de balé amarradas com fitas de cetim, evocando uma inocência escolar que viralizou. Os designs de Simone Rocha, repletos de tule e pérolas, ecoaram o drama delicado de O Lago dos Cisnes, enquanto marcas como Self-Portrait e Rodarte enfatizaram cinturas corpetadas e saias em camadas — silhuetas que sussurram o romantismo do século XIX.

Em 2024, Christian Siriano guiou o bonde da micro trend e ele continua vindo. Até mesmo marcas esportivas, como Alo Yoga (a queridinha de famosas como Georgina Rodrígues), adotaram leggings e suéteres transpassados inspirados no balé, suavizando a pegada esportiva com a da “hiperfeminilidade”. Mais recentemente, as passarelas têm trazido vários outros elementos dessa micro trend e diversas peças, como as blusas de malha transpassadas ainda são encontradas aos montes, também em lojas que vendem marcas populares.

Vaquera, Alexander McQueen, Ferragamo, JW Anderson e Simone Rocha são alguns dos que ditaram o Balletcore versão 2025. Foto: Pinterest

E não, não é exagero dizer que essas inspirações estéticas caminham paralelamente a um momento cultural em que o conservadorismo está em ascensão. Governos em todo o mundo promovem políticas que reforçam papéis de gênero tradicionais, enquanto as redes sociais glorificam as “tradwives” e a moda modesta aceita e difundida por religiões cristãs.

As bainhas longas, os decotes altos e os acessórios discretos do balletcore se alinham a esses ideais, moldando a feminilidade como frágil e imaculada. A nostalgia por uma época de papéis rigidamente definidos levanta questões: trata-se apenas de uma homenagem inofensiva à beleza ou de uma validação sutil de normas regressivas?

Além disso, o lado mais obscuro do legado do balé “complica” ainda mais esse modismo. O balé há muito tempo é criticado por promover padrões de beleza excludentes — magreza extrema, corpos predominantemente brancos. Traduzir esses ideais para a moda pode perpetuar representações limitadas, marginalizando diferentes tipos de corpos e expressões de gênero.

Marcas como Reformation, ao adotarem a suavidade do balletcore, frequentemente oferecem apenas tamanhos menores, ecoando essa característica excludente do mundo do balé. Mesmo marcas mais populares não oferecem peças do modismo em modelagens mais amplas, pensadas para tamanhos maiores. Digo isso por experiência própria, pensando nas lojas brasileiras de departamento e nas butiques de shopping mais acessíveis.

Foto: Divulgação Alo Yoga

A ênfase na hiperfeminilidade também entra em conflito com os avanços recentes em direção ao genderless e ao rompimento com a performance de gênero. Enquanto Balenciaga, ainda que de forma controversa, explora mais a androginia, as rendas e fitas do balletcore parecem um retrocesso ao colocar mulheres em caixinhas estéticas novamente. E essa questão não é apenas estética; reflete uma disputa cultural entre progressismo e tradição.

Com tudo isso, não quero dizer que o balletcore não é interessante, bonito. Aqui não estou propondo um cancelamento desse modismo – ou de nenhum outro. Mas é preciso refletir sobre as tendências e modismos que nos “empurram” e manter um olhar crítico.

A moda, como termômetro cultural, tem o poder de desafiar ou reafirmar o status quo. Os designers poderiam reimaginar a elegância do balé de forma mais inclusiva — celebrando corpos e identidades diversas. Os símbolos do balé não precisam ser uma ode ao passado, e podem apontar em direção a um futuro onde a beleza transcende a tradição.

Foto principal: Freepik

Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate. Me siga no Instagram Me siga no Instagram @experienciasdecabide @yopaulab

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