Trabalhadores criativos: em ano de eleição, o que você exige do seu candidato sobre cultura?

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Por Edra Moraes

Este é ano de eleição e não podemos deixar as indústrias criativas fora da pauta. No artigo anterior falei sobre como a cada mudança de governo, a cada troca de secretário, precisamos reconstruir vocabulários, convencer novamente sobre a importância da cultura, refazer redes, reabrir debates que já deveriam estar superados.

O Brasil discute economia criativa oficialmente desde 2009. Quase 20 anos depois, seguimos tentando provar o óbvio. Não importa o cargo: precisamos saber o que os candidatos conhecem, ou estão dispostos a aprender, sobre o assunto. Afinal, cultura e criatividade são riquezas. E, para muitos de nós, são também carreiras e sustento.

O conceito de economia criativa surgiu para designar um conjunto de atividades econômicas cujo insumo central é a criatividade, o conhecimento e a cultura. Quem acompanha a coluna já sabe disso. Inicialmente, o termo foi associado a políticas públicas que buscavam reconhecer a cultura como setor produtivo, capaz de gerar emprego, renda e desenvolvimento com identidade própria.

Ao longo dos anos, porém, esse conceito foi se deslocando para uma ótica cada vez mais individualista, marcada pela lógica do empreendedorismo. A ênfase passou a recair menos sobre coletivos, circuitos comunitários, bens públicos e direitos culturais, e mais sobre o “empreendedor criativo”: o produtor autônomo, o artista-marca, o profissional que deve se autogerenciar como empresa.

Os objetivos formulados nessas políticas, gerar empregos “qualificados”, atrair investimentos, aumentar o PIB cultural, posicionar a cidade como hub criativo, tendem a priorizar projetos facilmente mensuráveis, escaláveis e alinhados ao mercado. Isso produz um ambiente em que a criatividade é encarada, em boa parte, como capital humano e insumo econômico, e não como prática social, crítica ou comunitária.

A economia criativa, assim, ao mesmo tempo que amplia o reconhecimento do setor cultural, reconfigura o trabalho artístico e reforça a precarização, a projetização e a responsabilização individual sobre o sucesso ou o fracasso profissional.

Hoje, a economia criativa no Brasil - ao mesmo tempo que amplia o reconhecimento da cultura - reforça a precarização e responsabilização pessoal  pelo sucesso ou fracasso
Imagens geradas por IA

As portas giratórias da cultura

Li um artigo incrível de Abigail Gilmore sobre as “portas giratórias” na política cultural. O termo descreve o movimento de atores, gestores públicos, consultores privados e especialistas em economia criativa, que circulam entre governo, mercado e terceiro setor, reorientando a cultura sob a lógica de indicadores, investimentos e atração de capital.

Gilmore combina essa metáfora com a crítica ao instrumentalismo econômico da cultura: a prática de justificar a cultura apenas por seus efeitos mensuráveis, emprego, renda, turismo, valorização imobiliária, em detrimento de seu valor intrínseco, ético e comunitário.

E é nessa armadilha que tendemos a cair, incluindo esta que vos escreve. Se, por um lado, o argumento da multidimensionalidade do valor cultural parece não convencer os gestores públicos, por outro corremos o risco de absorver a cultura dentro de modelos de gestão neoliberal, em que ela passa a funcionar como ferramenta de desenvolvimento econômico e marketing.

O que fica à margem

O instrumentalismo que subordina a cultura à lógica do emprego, do turismo e da valorização imobiliária não apenas direciona recursos, mas tematiza o que interessa ao mercado. Torna difícil atender à arte que rompe com ele: a arte questionadora, ativista, não comercializável.

Nesse novo arranjo, a criatividade é tratada como capital humano e propriedade intelectual privada e o sujeito cultural é incentivado a se comportar como microempresa: cuidando de marca pessoal, redes, portfólio, metas de faturamento e parcerias comerciais. A política pública, na maioria das vezes, em vez de fomentar vínculos coletivos, experiências heterodoxas ou circuitos não mercantilizados, passa a estimular empreendedorismo criativo, concorrência entre profissionais e integração de artistas na lógica de prestação de serviços e plataformas.

Um sinal claro desse deslocamento é a forma como consultorias privadas passaram a redigir, coordenar ou estruturar boa parte dos editais de economia criativa, em nível federal, estadual e municipal. Os hubs, incubadoras e marcas de “cidade criativa” que se espalham por capitais e grandes cidades brasileiras seguem a mesma direção. Esses espaços, em muitos casos, ocupam áreas centrais ou em processo de revitalização, reforçando a lógica da gentrificação criativa: a cultura como isca urbana.

Até aqui falamos sobre os perigos da individualização, dos editais e formatos de seleção focados no artista como mero empreendedor, e na gentrificação causada pelas “revitalizações” baseadas em arte.

Além da crítica, precisamos pensar alternativas

O que está em jogo não é apenas diagnosticar a lógica das portas giratórias e o instrumentalismo econômico da cultura. É preciso ir além da crítica e abrir espaço para alternativas concretas, e elas não precisam ser nem radicais nem utópicas.

Pensar a cultura como direito, e não apenas como mercadoria, só é possível quando uma classe trabalhadora criativa, composta por artistas, técnicos, artesãos, produtores, gestores e educadores, se reconhece como coletivo de trabalho cultural, e não como conjunto de empreendedores solitários em busca desenfreada pelo sucesso.

Isso significa também orientar e cobrar dos nossos candidatos o desenho de políticas culturais situadas e participativas: construídas com comunidades, periferias, povos originários e circuitos não mercantilizados, em vez de modelos importados de “cidades criativas” e hubs de inovação. Aqui vale destacar o novo formato do SALIC WEB, em que o território criativo e projetos focados em sustentabilidade podem ser uma resposta concreta.

O gesto político que se impõe pode ser resumido em uma atualização do chamado marxiano: trabalhadores criativos, uni-vos. Não a partir de uma lógica de concorrência, de branding individual e de precarização, mas a partir da construção de solidariedade, de redes de cooperação e de dispositivos coletivos que reafirmem a cultura como esfera de autonomia, dignidade e resistência, e não como mero insumo para o mercado, nem como indústria de trabalho precário, pejotização, baixos salários e carreiras sem horizonte.

Existe saída para economia criativa — e não está tão longe

A Irlanda mostrou isso. Em 2022, o país lançou o Basic Income for the Arts: uma renda básica paga diretamente a artistas e trabalhadores culturais, sem exigir que eles virem empresa, sem métrica de impacto econômico, sem edital de concorrência. Um reconhecimento simples e direto de que o trabalho criativo tem valor, e de que quem o realiza merece condições para continuar realizando.

No Brasil, essa conversa também já começou. A deputada federal Lenir de Assis (PT/PR) apresentou o PL 1533/2026, que propõe uma Renda Básica para as Artes e para a Cultura, um incentivo financeiro voltado a profissionais do setor em situação de vulnerabilidade, com foco em estabilidade, inclusão e garantia de direitos culturais.

São experiências diferentes, em contextos diferentes. Mas apontam para a mesma direção: é possível fazer política cultural que não trate o artista como empreendedor, nem a cultura como mercadoria.

No próximo artigo, vamos conhecer estas e outras experiências em detalhe, entender o que as diferencia e o que elas têm em comum, e perguntar, sem meias palavras, o que os nossos candidatos pretendem.

Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa.

Prêmios:  Obras Literárias Digitais 2020“Antologia Poética | Seleção da AutoraMemorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura UnesparCultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.

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