Meu marido quer que eu trabalhe, mas não quero ganhar pouco e enfrentar dupla jornada

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Por Telma Elorza

“Sou casada há 10 anos, tenho 35 anos e meu marido 37. Há cerca de dois anos, ele passou num concurso e nos mudamos para outro estado, bem longe das nossas famílias. Eu pedi demissão para acompanhá-lo e, na atual cidade, não encontro emprego na minha área. Passei a cuidar da casa e de nossos dois filhos, mas agora meu marido diz que está cansado de prover tudo sozinho e que eu preciso me virar para arrumar um trabalho. Só que os trabalhos oferecidos aqui estão abaixo da minha qualificação profissional e pagam muito pouco. Estou errada em não querer me sujeitar a ganhar pouco e fazer dupla jornada se ele tem capacidade de prover todas as nossas necessidades? Ele sempre diz que estou me aproveitando da situação para não fazer nada.”

Amiga, do jeito que você descreve a situação, não me parece que o problema é falta de vontade de trabalhar nem comodismo. Me parece que o casal entrou numa grande mudança – de cidade, de estado, de rotina, de renda e até de identidade profissional – e nunca se ajustou direito com as expectativas de cada um depois disso.

Eu acho que, quando você pediu demissão para acompanhar seu marido e ver sua carreira crescer, houve um acordo implícito (mesmo que nunca tenham verbalizado isso com todas as palavras) entre o casal. Você abriu mão da sua carreira e da renda que ela gerava, além de toda uma rede de apoio das famílias (imagino), naquela hora, para apoiar a carreira dele e sustentar a estrutura familiar. Isso não é pouco, não. Não sei se eu teria a coragem de fazer isso.

O ponto central dessa situação não é quem está certo, mas o desiquilíbrio que se criou entre o casal. Seu marido se tornou o único provedor e, isso, em muitas pessoas, vira uma pressão silenciosa. Ao mesmo tempo, você ficou em casa, cuidando dos filhos e do lar, o que é um GRANDE TRABALHO. Só que, infelizmente, não reconhecido e não renumerado. Se isso não for conversado entre vocês, com clareza e sinceridade, pode virar ressentimento dos dois lados.

Você não está errada em não querer aceitar qualquer trabalho mal pago e abaixo da sua qualificação. Provavelmente, fazer isso não vai gerar o suficiente para você contratar alguém para assumir as tarefas que faz hoje em dia, em casa. E você sabe disso, quando prevê dupla jornada.

Pra mim, a mulher deve ser independente do marido

Eu acredito que voltar ao mercado seria interessante para todos, inclusive você mesma. Sou a favor da mulher ser independente do marido – lógico que com divisão de tarefas domésticas. Isso evita muitas situações que podem ocorrer no futuro. Mas, e você? Está tentado buscar alternativas que façam sentido com sua formação e lhe dê renda mais que suficiente para ter uma rede de apoio paga ou se acomodou, sim, no papel de dona de casa? Ficar esperando o “emprego ideal” – que pode nunca chegar – pode deixá-la mais pressionada dentro de casa.

Às vezes, numa cidade nova, o caminho não é começar no “emprego ideal”, mas em algo que lhe dê possibilidades, que a mantenha ativa profissionalmente e, se possível, conectada com sua área, criando uma referência futura para seu nome. Mesmo que não seja perfeito. É tipo se reposicionar no mercado. Como você não disse qual sua área, fica difícil sugerir alternativas.

Mas pense o seguinte: mesmo em cidade pequenas, há sempre uma ou duas empresas grandes que podem ser as portas de entrada para sua expertise. Que tal buscá-las tentando adaptar seus conhecimentos profissionais às necessidades delas?

Uma segunda opção é criar alternativas de renda mais flexíveis. Dependendo da sua área, dá para pensar em trabalhos remotos, consultorias, projetos pontuais, atendimento on-line ou até algo paralelo – como confeitaria, por exemplo, ou algo que você saiba fazer bem – , enquanto o mercado local não abre as portas.

Agora, uma coisa tem que ficar bem clara. Você e seu marido precisam abrir as contas de forma transparente. Quanto entra, quanto sai, qual o custo real de vida. Porque, se ele acha que está “cansado de prover”, isso pode significar mais exaustão do que ansiedade de um cálculo justo.

E não deixe seu marido acusá-la de “não querer fazer nada”. Isso é injusto e, pior, corrosivo para a relação de vocês. Reduz seu papel na parceria de vocês. E você renunciou a muita coisa por ele. Se for o caso, pesquise valores de empregadas domésticas e babás aí da sua área, só para mostrar a ele que seu trabalho diário deve ser reconhecido.

Se vocês querem, como casal, sobreviver a essa fase, precisa sair desse jogo de acusação e entrar no planejamento conjunto, buscando alternativas.

Se isso não acontecer, o risco é de virar dois adversários dentro de casa, um cobrando dinheiro e outro defendendo dignidade profissional. E nesse cenário, todo mundo perde.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

A leitora mudou sua vida para acompanhar o marido e agora ele está cobrando que volte a trabalhar
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Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

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