Quase vinte anos acompanhando políticas culturais no Brasil me ensinaram uma coisa: a sensação mais constante não é a de avanço. É a de voltar ao ponto zero
Por Edra Moraes
Há 17 anos estudo economia criativa no Brasil. E a cada mudança de governo, a cada troca de secretário, precisamos reconstruir vocabulários, convencer novamente sobre a importância da cultura, refazer redes, reabrir debates que já deveriam estar superados. O Brasil discute economia criativa oficialmente desde 2009. Quase vinte anos depois, seguimos tentando provar o óbvio.
Os números confirmam isso com clareza incômoda. A Lei Paulo Gustavo alcançou 5.398 municípios e executou cerca de R$ 3,9 bilhões em cultura. Mas 1.173 municípios não conseguiram utilizar integralmente os recursos. Mais de mil cidades devolveram dinheiro da cultura. Aproximadamente R$ 205 milhões voltaram à União até janeiro de 2025.
Não estamos falando de escassez. Estamos falando de incapacidade administrativa, ausência de equipes técnicas, desinteresse político ou de estruturas municipais simplesmente despreparadas para operar políticas culturais contemporâneas.
O paradoxo brasileiro é este: existe recurso federal, existe formulação técnica, existe produção cultural pulsante, mas a execução local emperra. Nas eleições municipais de 2024, partidos de centro e direita ampliaram o controle sobre os municípios. A oposição passou a controlar 20 das 27 capitais. A cultura é formulada em Brasília e frequentemente sabotada nos territórios.
É no município ou no estado que o edital não sai. É na secretaria local que o recurso fica parado. É na lógica do favor político que projetos são escolhidos. A economia criativa no Brasil é profundamente municipalizada e por isso, mapear a cultura hoje significa mapear poder.
Esse padrão não acontece por acaso. Em 2011, o Brasil criou sua primeira Secretaria de Economia Criativa. Parecia o início de uma transformação estrutural. Mas a secretaria foi descontinuada poucos anos depois. Entre 2016 e 2022, o setor atravessou um apagão institucional. Somente em 2025 a Secretaria foi recriada. Uma década inteira perdida. Somente em 2026 surgiram novos instrumentos como o Portal Brasil Criativo e o Observatório Brasileiro da Economia Criativa. O país voltou a falar no tema — de novo, com a sensação de estar começando do zero.
Enquanto isso, o cenário internacional mostra outra face possível. Neste mês de maio de 2026, durante a Bienal de Veneza, mais de 200 profissionais da arte participaram de uma greve internacional organizada pela Art Not Genocide Alliance. Pavilhões nacionais fecharam em protesto. A paralisação demonstrou algo que o Brasil ainda parece não compreender plenamente: trabalhadores da cultura possuem força política coletiva, e ela é forte.

E chegamos, inevitavelmente, a cultura de Londrina.
O caso londrinense tornou-se emblemático exatamente por ser tão comum. Prazos perdidos no plano municipal de cultura, ausência de articulação política, um abismo entre discurso e prática que sintetiza o problema estrutural brasileiro. Uma cidade com potência criativa real, universidades, cenas independentes, trajetórias consolidadas, mas cujas estruturas institucionais seguem tratando a cultura como assunto secundário.
Onde a cultura depende exclusivamente da boa vontade do gestor da vez, tudo se dissolve a cada troca de governo.
Talvez o mais inquietante seja perceber como uma classe extremamente ativa nos debates nacionais permanece ausente das disputas locais. Discutimos presidência com intensidade. Mas abandonamos conselhos de cultura, planos diretores, fundos municipais, exatamente os espaços onde a política cultural é definida na prática.
A pergunta central já não é se a economia criativa é importante. A pergunta é por que o Brasil — e Londrina junto com ele — insiste em tratá-la como política temporária de governo, e não como estratégia permanente de Estado.
Porque enquanto isso não mudar, continuaremos presos neste ciclo exaustivo: avançar, destruir, reconstruir, e começar novamente. Pense nisto nas próximas eleições. Eles podem destruir tudo novamente, e levarmos mais dez anos para recomeçar. E estamos falando da sua carreira, e não do seu hobby!
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa.
Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.
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