Skip to content

E se Londrina tiver alagamento em todas as regiões?

Por Ana Paula Barcellos

Pra ser bem sincera, a pergunta que faço para mim mesma é: “E o dia que Londrina tiver alagamento em em todas as regiões”? Porque pra mim parece questão de tempo. A mudança climática é uma realidade e, quem vive aqui, tem acompanhado as mudanças bastante drásticas dos últimos anos.

Até 2004 ainda fazia frio no inverno. Já não era o mesmo frio da minha infância e adolescência, também já não durava o mesmo tempo, mas ainda esfriava bem. Me lembro claramente do último inverno em que usei roupas e cobertas realmente pesadas: foi no inverno de 2001, o último que passei com meu pai. Eu tinha 17 anos, estava encapotada e ainda assim sentia frio.

LEIA TAMBÉM

De lá pra cá, o inverno foi se desfazendo. Primeiro diminuiu a intensidade do frio, depois o número de dias de inverno real caiu drasticamente. Passaram a ser alguns dias de frio, apenas. Algo entre 3 e 5 dias, no máximo. A última vez que a temperatura abaixou de verdade foi no inverno de 2021, ainda na pandemia.

O calor, por sua vez vem aumentando, também drasticamente. Temperaturas cada vez mais altas, sol cada vez mais ardido, clima cada vez mais seco, verão começando cada vez mais cedo e atravessando o outono. Agora, tem dia que é 8h30 da manhã e o sol já se parece com o do meio dia, tanto em luminosidade quanto em calor. E quem aguenta esse calor que quase não dá arrego?

Vocês se lembram de quando ar-condicionado estava inserido na categoria de itens de luxo? Pois já tem dois anos que está mais fácil comprar, tanto pelo preço quanto pelas condições de pagamento. Virou item de primeira necessidade, os ventiladores já não dão mais conta do recado. Todo mundo que pode compra, nem que seja parcelado em 36x.

As mudanças climáticas já estão sendo sentidas há anos. Londrina não tem mais inverno há muito tempo. O alagamento total do Rio Grande do Sul pode se repetir aqui, se a gente não fizer alguma coisa
Imagem de Darwin Laganzon por Pixabay

E falar em calor extremo me lembra das queimadas criminosas no Pantanal, também durante a pandemia. Queimadas, inclusive, que deixaram sinais no nosso céu: foram três dias de coloração diferente e textura de cinzas. Me lembro de um especialista falando (e inclusive estou buscando essa referência) que essa alteração não era nada comparado com os impactos que a gente sentiria no nosso próprio clima. Pode não parecer fazer sentido à primeira vista, mas uma catástrofe climática ocorrida em um ponto pode afetar outro.

Me lembro disso cada vez que minha pressão abaixa com o calor, cada vez que me sinto indisposta com ele, cada vez que maldigo o aquecimento global e a ganância dos poderosos; cada vez que me lembro que não tem serventia separar meu lixo, economizar na água do meu banho e cuidar bem das árvores mais antigas da minha calçada se quem realmente tem influência e poder para fazer algo não vai fazer. Se quem realmente causa os grandes estragos não está disposto a parar de estragar e ainda vai dizer que é tudo delírio da cabeça de algumas pessoas.

Alagamento no Sul

Estamos acompanhando a tragédia no Rio Grande do Sul, fazendo nossas preces, nossas doações. E descobrimos que esse foi mais um desastre climático anunciado e evitável. Que engavetaram um relatório feito em 2015 a pedido do Governo Federal que tratava de medidas a serem tomadas para evitar esse tipo de colapso. Acompanhamos, rezamos e descobrimos, chocados e indignados, como se fosse algo muito distante de nós, como se estivéssemos protegidos.

E não estamos. Londrina é uma cidade vertical que não quer parar de crescer, continua ignorando alertas ambientais, desmatando e ocupando cada m2 da cidade com prédios e mais prédios. Só na Gleba Palhano tem 9 prédios em construção, na região do centro há outro tanto, fora o tanto de condomínios e outros empreendimentos do gênero nas regiões mais afastadas.

Já avisaram que isso tem um custo, impacta o ambiente. Londrina já alaga com chuvas de intensidade média em diversos pontos da cidade, lembra que comentei sobre isso aqui? E quando começar a alagar em outros pontos, e quando alagamentos forem comuns em todas as regiões da cidade?

Um dos principais motivos que fazem as ruas de uma cidade alagar é o excesso de concreto e asfalto e a falta de áreas verdes para a absorção da água, sistemas de drenagem deficientes. Não caiam no conto do bueiro entupido, isso pode acontecer, mas não é o que causa impactos dessa magnitude. E da mesma forma que um fenômeno ocorrido em um ponto do país pode afetar outro, o desmatamento de uma área da cidade pode afetar as outras. A saída? Existe e é capaz de evitar esse tipo de colapso: urbanismo climático. É preciso repensar a cidade do ponto de vista climático.

Nesse momento, Londrina precisa da chuva que não vem. A previsão ameaça, o céu até chega a nublar, mas ela não chega. O friozinho provoca, mas sai correndo. A gente frita nesse sol escaldante enquanto as árvores jovens plantadas pela prefeitura riem na calçada. Não vejo a hora da chuva chegar, mas rezo pra ela vir devagar – imagina se vem com tudo?

Foto principal: Flickr

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram @experienciasdecabide e yopaulab

Foto principal: Arquivo pessoal Mateus de Oliveira

Leia mais Crônicas de uma cidade

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINENSE.

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Designed using Magazine Hoot. Powered by WordPress.