Por Ana Paula Barcellos
Mudei a rotina há um mês e meu prédio pareceu outro. Gente que eu cruzava no elevador duas, três vezes por semana simplesmente sumiu. Não sei se trocaram o horário, se estão viajando, se adoeceram ou se apenas se fecharam mais dentro de casa. Nem no elevador tenho encontrado os vizinhos, e percebo que, mesmo durante o dia, eu tenho descido e subido mais vezes sozinha do que acompanhada no elevador. Na maioria das vezes, somos eu e o barulho do elevador, que faz um rangido muito específico, principalmente quando está subindo.
É estranho como a gente se acostuma rápido com a ausência. Você sabe que tem vizinho do lado, em cima, embaixo. Escuta os passos no andar de cima, vaso sanitário dar descarga às três da madrugada, vez ou outra o som de uma série no volume mais alto, um cachorro latindo ou o barulho que as patinhas fazem no laminado. Mas não vê a cara. E aí começa a pensar: será que os vizinhos do 704 estão bem? E aquela senhora que eu via sempre na portaria após o almoço, cadê? Ninguém pergunta. A gente não tem tempo de perguntar, nem intimidade.
Quem mora sozinho deve sentir isso ainda mais forte. Acorda, faz café, trabalha (dentro ou fora de casa), volta, janta, deita. O dia inteiro pode passar sem que uma única pessoa pergunte “como você tá?”, sem trocar algumas palavras aleatórias ou uns sorrisos amarelos que seja com os vizinhos. Aqui a gente tem o grupo do prédio no WhatsApp, mas até ele anda mais parado nos últimos dias. As redes sociais mostram todo mundo conectado, mas o corredor do prédio continua vazio. E eu mesma só parei pra reparar de verdade nisso esse mês.

Os vizinhos e a solidão de cada um
Imagino que com as pessoas mais velhas deve ser ainda mais difícil. Minha mãe mora num prédio cheio de idosos independentes. Gente que ainda vai ao supermercado, faz a própria comida, toma remédio direitinho. Mas quando chega a noite, o silêncio deve ser muito grande. A vizinha dela, uma senhora bem disposta, de cabelo bem arrumado, sempre com um bom dia animado quando a gente se encontra no corredor, quase nunca é vista com companhia.
Fico imaginando a rotina dela. Acorda cedo, rega as plantas, assiste ao jornal (sei que ela gosta de assistir TV porque uma vez ajudei a sintonizar o aparelho dela), almoça, talvez dê uma volta no quarteirão, vai ao mercado. E depois? Com quem ela divide o que viu no dia? Quem ri das histórias repetidas? Quem bate na porta de vez em quando pra perguntar como ela está?
E esse é mesmo o normal. A vida organizou tudo tão bem, trabalho, academia, filhos, contas, séries, que sobrou pouco espaço pro contato humano do tipo inprovisado. A gente sabe o nome do vizinho, às vezes até o sobrenome, mas não sabe se ele tá triste, se tá doente, se tá precisando de uma conversa boba de elevador ou corredor.
A cidade está cheia de gente. E, ao mesmo tempo, nunca foi tão vazia. Assim são também estão me parecendo os prédios esses dias. Assim está parecendo o meu prédio.
Talvez seja hora de pegar elevador em outros horários, mas também da gente, de forma geral, prestar mais atenção. Perguntar como as pessoas estão eu sempre pergunto, mesmo que a resposta seja só um “tudo bem” seco. Porque a gente nunca sabe quem teve um dia difícil, quem precisa desabafar sobre a marmita ruim que comeu no almoço. E a pior solidão é a de quem está cercado de paredes finas, através das quais é possível ouvir até os passos do vizinho, e, ainda assim, está sozinho.
Foto principal: Magnific
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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