Os fantasmas do CAPS III de Londrina

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Por Ana Paula Barcellos

Na última segunda-feira, precisei ir até o CAPS III como acompanhante. Peguei um carro da 99 e, enquanto a Avenida Winston Churchill passava pela janela, eu ainda não tinha me dado conta de onde estava indo — não de verdade. Só quando me despedi do motorista e meus pés tocaram a calçada que o peso do destino me acertou. Descer aquela rampa gasta, cheia de sons e ruídos, continua sendo um suplício, mesmo tanto tempo depois. O cheiro de mofo, o som de vozes abafadas e o zumbido de mosquitos me transportam direto pra um passado que eu preferia esquecer.

Entrei no pátio e me sentei numa cadeira da sala de espera, sabendo que, dessa vez, não sou eu a paciente. Ainda assim, a sensação ruim me engole inteira. Os mosquitos me picam, e cada picada me leva de volta aos dias em que eu ficava sentada no banco de concreto do pátio, com meus livros abertos no colo, tentando fugir de tudo aquilo. Eu lia pra não encarar os momentos coletivos que detestava — porque eu simplesmente não cabia neles. Pior ainda eram os momentos em que eu era assediada, e tudo ficava complicado: os doentes podiam ser violentos e agressivos, mas também eram doentes, e eu não sabia como lidar com a culpa de sentir medo deles.

CAPS III e suas cicratizes

Olho ao redor e vejo as paredes descascadas, escarradas, mijadas, sujas e fedidas, que entregam todo tipo de sofrimento e feridas. O CAPS III é um lugar que não esconde nenhuma das malditas cicatrizes — elas estão ali, expostas, gritando em cada canto. Estar aqui, mesmo que por pouco tempo, só aumenta o desprezo que tenho por esses escombros que fingem ser clínica. Lembro que o único lugar onde me sentia acolhida era a sala de terapia ocupacional. Bordar ao som das músicas da Tribuna FM, enquanto as outras mulheres balbuciavam, realmente ajudava. Mas até ali tinha um preço: cada ponto em falso, cada laranja diferente no pano de prato, trazia o olhar contrariado da instrutora. Eu me sentia avaliada, julgada, mesmo num espaço que deveria ser de cura.

A administração pública ignora com gosto o CAPS III, que carrega os fantasmas mais pesados da cidade
Foto: www.cic.fio.edu.br

Parei de pensar em tudo isso quando finalmente chamaram o nome da pessoa que eu acompanhava. Mas, enquanto caminhava pelos corredores, cada sala, cada parede, cada pedaço daquele lugar só me dava vontade de sair correndo. O CAPS III é um lugar fantasma, assombrado por fantasmas, formado por ruínas mal-assombradas que fazem até a mais lúcida das pessoas querer parar de existir. Quantas histórias de dor nessas paredes? Quantas vozes ouviram aqui, pedindo ajuda, gritando silêncios que ninguém quis escutar?

E esse é um dos lugares que a administração de Londrina ignora com gosto. O CAPS é um pedaço da cidade que carrega seus fantasmas mais pesados — os da saúde mental, os do estigma, os do descaso. É um lugar que acolhe, mas também fere; que cuida, mas também expõe. E me pergunto: o que a cidade faz com esses fantasmas? Vai deixar apodrecer junto com tudo que ali não funciona, ou será que, um dia, nem que seja por milagre, vai aprender a olhar pra eles sem desviar os olhos?

Foto principal: Ilustração criada por IA/Grok

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram @experienciasdecabide e yopaulab

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