Por Ana Paula Barcellos
Sim, a manhã, que dessa vez começou na cafeteria do posto, me trouxe papo de lobisomem.
Era um coado grande, três pães de queijo e o sósia do Sílvio Santos tagarelando na TV – Eu ando fugindo mesmo das delongas políticas, mas logo eu volto, seu Ronaldo!
Entra um rapaz com uma lata de chá na mão. Ele trocava áudios animados com alguém sobre histórias boas demais pra serem verdade, aquelas de pescador. De repente, soltou: “ele é o doido, o lobisomem”. Ri sem pensar. Ele percebeu, virou o rosto e sorriu.
Dias antes, no BarBearia, uma amiga comentou que viu minha curtida num post do Instagram sobre histórias de lobisomem. Leu os causos e se arrependeu porque era de noite. Contei que sou fascinada por isso desde pequena. O que mais me pegou foi a sagacidade de quem pediu pro lobisomem voltar no dia seguinte pra pegar o sal. Simples assim. Esperto.
Histórias de assombração, lobisomem e saci

Minha vó Amélia, criada no sítio, contava de assombração, lobisomem, saci, curandeira, sonho que virava realidade. Tia Nina, que trabalhou em casa, também. Elas viam que eu prestava atenção e soltavam mais. Eu adorava. E sempre ficava com a mesma pergunta: onde foram parar esses bichos aqui na cidade? O saci, os lobisomens, a noiva do cemitério. Será que o excesso de luzes, prédios e asfalto espantou a galera toda? Ou os causos só sobrevivem no campo, onde ainda tem breu, poeira e silêncio pra eles respirarem?
Pensava nisso quando chamei o carro por aplicativo. Longe do centro, chegando perto da Avenida dos Pioneiros, um monte de poeira misturado com terra subiu na calçada do outro lado. “Um redemoinho de poeira!”, me empolguei. O motorista assentiu na hora: “Redemoinho de saci!” E falou mais alto: “Só não pode assoviar”. Juro que eu ia. Voltei a ter onze anos, pronta pra traquinagem. Quando fiz bico, o redemoinho se desfez. Motorista aliviado. Eu ri sem graça. Fica pra próxima.
A cidade cresce, ilumina, asfalta e acha que apagou tudo. Mas basta um áudio no posto, uma poeira na avenida ou uma lembrança da vó pra gente ver que os lobisomens não sumiram. Só aprenderam a se esconder melhor. E a gente, de vez em quando, ainda tropeça neles, ou num saci. Ou eles em nós.
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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