Enfim, uma dentro: multas por doação de sangue

selective focus of rubber ball in hand of cropped volunteer with transfusion set sitting on comfortable medical chair near transfusion machine in blood donation center

Por Ana Paula Barcellos

Pra não dizer que não falei de coisa boa nesse fim de ano, vou falar das multas de trânsito que vão se transformar em doação de sangue.

Povo da Câmara, enfim, deu uma dentro: o PL nº 22/2025, autoria do vereador Deivid Wisley (finalmente, hein, Deivid?), aprovado em segundo turno na última sessão, com emendas que deram um jeitinho na burocracia. Aprovado, e agora segue pro prefeito sancionar, prometendo virar lei antes que o ano vire panetone.

O que esse PL faz? Permite que motoristas troquem multas de trânsito leves ou médias – aquelas aplicadas pela CMTU ou Guarda Municipal – por doações de sangue em hemocentros credenciados pelo Ministério da Saúde. Em vez de pagar R$ 130,50 por estacionar no lugar errado ou esquecer o cinto, você vai lá, estende o braço, salva uma vida (ou três, dependendo do estoque) e tchau multa. Tchau pontos na CNH.

Pelo texto da lei – que está disponível no site da Câmara Municipal de Londrina –, os requisitos são claros e justos, pra não virar bagunça. Homens precisam comprovar pelo menos duas doações nos últimos 12 meses; mulheres, uma só. As doações têm que ser recentes, validadas pelos hemocentros, e aí a multa é anulada, pontos retirados da CNH, e o condutor sai de lá com um certificado de doador. Uma emenda aprovada ainda dá 60 dias pra CMTU regulamentar o processo.

E olha que beleza: isso não é só um paliativo pros coitados multados. É uma tacada dupla pro bem comum. Londrina, como o resto do Brasil, vive com estoques de sangue no osso – dados do Ministério da Saúde mostram que só 1,8% da população doa regularmente, e a maioria é jovem, entre 18 e 29 anos (42% dos doadores, segundo relatórios recentes). Imagina o impacto: multas que, em vez de encher o Fundo de Trânsito (e quem sabe onde vai parar cada centavo?), viram plasma, plaquetas e hemácias pros hospitais. Quase que eu senti o espírito natalino agora, hein?

A CMTU que ama multas

Mas aí vem a parte que me faz rir (e chorar um pouquinho): a CMTU. Ah, a nossa querida Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização, que ama multas como eu amo café forte. Em 2024, foram mais de 300 mil infrações só em Londrina – excesso de velocidade, estacionamento irregular, avanço de sinal. E no quê se transformam essas multas? Buracos nas ruas? Semáforos que piscam como bêbados? Ciclovias que acabam no nada? Multam o cidadão comum, que não manda no asfalto rachado nem no planejamento urbano que transforma o centro em labirinto de concreto.

Sem contar que a CMTU abandona os motoristas de aplicativo à própria sorte, sem estrutura nenhuma pra rodar pela cidade, e arrecada demais em cima deles! Esse PL, pelo menos, dá uma utilidade poética pras multas: transforma punição em redenção. Em vez de só arrecadar (e a gente torcer pro dinheiro ir pra educação no trânsito, como manda a lei federal), agora pode salvar vidas. Quem diria que uma infração leve viraria doação vital? Quase dá um quentinho no coração, eu te digo. Quase a magia natalina me pega.

Pois eu estava aqui, quietinha, pensando sobre essa lei sair do papel – motoristas saindo do Hemocentro com o curativo bolinha no braço e o bolso aliviado, bancos de sangue cheios, quando me mandaram aquela foto. Sabe qual? O Papai Noel do Lago Igapó, montado na plataforma, com olhos vidrados e sorriso que parece saído de “O Grinch” versão baixo orçamento. Terror puro ao custo de 1,8 milhões! Boneco feio, esquisito e com uma pose que diz “venha pegar seu presente… ou me dar sua alma”. Qualquer quentinho evaporou. O espírito natalino já era.

A Câmara Municipal de Londrina deu, enfim, uma dentro: projeto de lei permite trocar multas de trânsito por doação de sangue
Foto: Print de vídeo da Prefeitura de Londrina

Aqui é assim: tem boa notícia, mas seguida de uma rasteira pra gente não se animar demais e voltar logo para a realidade.

Doe sangue, evite multas e fuja dos “bons velhinhos” fake.

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.

Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab

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