Por Ana Paula Barcellos
Essa seria uma semana em que eu falaria da vida tomando café, mais de boa. Mas os escândalos não dão trégua e a padaria ferve!
Não bastasse tudo de ruim, de difícil, todo o descaso que a atual administração tem com os problemas da cidade, agora ainda temos que lidar com a água envenenada dos nossos lagos. Primeiro o Igapó, agora o Lago Norte. A Secretaria Municipal do Ambiente (SEMA) confirmou: um condomínio recém-inaugurado, avaliado em pomposos R$ 126 milhões, na Zona Norte, despejava esgoto clandestino direto nele. Um teste com corante ligou o ralo às águas do lago, transformando o paraíso particular em palco de crime ambiental coletivo.
A síndica do condomínio jurou surpresa, diz que foi atrás da construtora responsável. A SEMA notificou o condomínio – 24 horas para consertar o estrago. Processo administrativo aberto, encaminhamento ao Ministério Público. Mas e os nomes do condomínio e da construtora? Ah, esses ficam no escaninho da discrição oficial. “Para preservar a investigação”, dirão. Ou para preservar os interesses? Porque a gente sabe bem: o silêncio é o primeiro cúmplice do veneno.
O Lago Igapó, há poucas semanas, já tinha virado manchete pelo mesmo motivo. Um prédio na Gleba Palhano, berço das torres que brotam como cogumelo depois da chuva, foi flagrado jogando esgoto direto nas águas do Igapó. 24 horas pra resolver, a prefeitura prometeu fiscalizar, tudo igual. Mas ainda tem cheiro de água podre no ar.
Eu conversava sobre isso com um pescador dias antes da questão estourar, ele já tinha cantado essa bola. “O povo ficou muito tempo distraído com a questão das algas, que são só um sintoma”, disse. “Proliferação assim não vem do nada. É desequilíbrio gritante, sinal de contaminação. Esgoto clandestino, com certeza – é sempre o mais óbvio.” Pois eu vou além: misture isso com produtos químicos, é minha aposta. Fácil de detectar, por que fazem o processo todo demorar tanto? Ele também apostou: “Será que dói mexer no vespeiro? Quem fiscaliza de verdade muitas vezes arrisca o emprego.”
Lagos da cidade viram esgoto a céu aberto
Por que a prefeitura demora tanto? Tenho pra mim que essa morosidade não é acidente; é sintoma de uma cidade que prioriza o dinheiro do concreto ao meio ambiente. A quem interessa essa demora? Aos construtores que faturam milhões enquanto os lagos viram esgoto a céu aberto? Aos políticos que cortam verbas ambientais para inflar o caixa de obras superfaturadas? Ou a nós, cidadãos, que reclamamos muito no WhatsApp e nas redes mas compramos o apê com vista pro “verde”?
Londrina cresce a 150 km/h, mas o saneamento engatinha. Segundo dados da própria SEMA, mais de 30% das ligações irregulares na cidade escapam à rede oficial – e Gleba é o bairro campeão. Cada gota de esgoto é veneno que causa desequilíbrio, mata peixes, envenena toda a estrutura.
E se investigassem de verdade? Começando pela Gleba, onde o crime se gesta. Fiscalizações surpresa, multas que doam no bolso dos milionários, e, acima de tudo, uma prefeitura que antecipe o veneno em vez de remediar o cadáver. O pescador riu amargo: “Algas são só o alarme. Ignorem e o lago vira pântano. Depois, a gente que aguente o cheiro.”
E não é?
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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