Por Ana Paula Barcellos
Levo minha filha todos os dias à escola. O carro entra na fila, para ao lado do portão, e só acelera quando o pátio da escola engole ela. Não sei dizer quando ela vai poder ir sozinha. Talvez daqui a dois anos. Será mesmo? Não tenho essa resposta.
Na calçada oposta, um pai fica plantado. Olha o filho atravessar a faixa, entrar pelo mesmo portão, sumir no pátio. Só então vira as costas e vai embora. Perto do Bosque, outro homem — imagino que pai — segura firme duas mãos pequenas, uma de menino, uma de menina. Eles vão no sentido do Mãe de Deus. Ele aperta mais forte na hora de atravessar a rua. O semáforo pisca vermelho para os carros, mas ninguém confia de verdade.
Na minha época, a gente ia e voltava sozinha para a escola. Dizem que eram outros tempos, mais fáceis. Tenho minhas dúvidas. Talvez houvesse menos carros, menos notícias de tudo o que podia acontecer, menos telas mostrando o pior em tempo real. Ou talvez a gente simplesmente não soubesse de tudo. O perigo existia, mas ficava mais quieto. Outras questões.

Como proteger sem sufocar seu filho?
Quem é pai e mãe, cuidador, vive no malabarismo. Proteger sem sufocar. Segurar a mão o máximo possível, mas soltar na hora certa para que ela aprenda a atravessar sozinha, a dizer não, a reconhecer o caminho de casa. Minha filha, já adolescente, conversa com os colegas sobre isso. Sobre a necessidade de ser independente, “funcional” como ela mesma diz, e o medo de não dar conta. Do outro lado, predadores reais, redes que enganam, perigos palpáveis e os invisíveis que a gente nem imagina.
A cidade não ajuda. O espaço para crescer é pequeno. É o pátio da escola, uma praça se tiver sorte, o shopping com os amigos quando dá. O resto é trajeto vigiado, mão dada, carona obrigatória.
E não existe receita. Não existe garantia. Só a tentativa diária de acertar. O bom senso que falha às vezes. A vontade de segurar forte pela mão enquanto dá, sabendo que um dia — se tudo correr bem — ela vai soltar sozinha. E a gente fica olhando da calçada, com aquele olhar típico de pai e mãe, atento, esperando eles entrarem no pátio antes de virar as costas.
É isso que a cidade oferece para crianças e adolescentes hoje: um espaço apertado entre o portão da escola e o medo da rua. E a gente segue tentando caber nele.
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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