Por Ana Paula Barcellos
Estou aqui, hoje, café na mão e uma saudade no peito, como grita o sertanejo na música que sai pela janela daquele carro. Sinto falta do meu pai. Não só dele, mas do que ele representava: a possibilidade de conversar, de verdade, mesmo pensando tão diferente de mim. A gente discordava em política, em religião, em quase tudo, mas isso nunca foi barreira. Pelo contrário, era ponte, unia. A gente podia ficar um tempão junto, discordando. Ele ouvia, eu ouvia, e a gente crescia.
Hoje, na correria das ruas, nos bares lotados, nas redes que não param, está cada vez mais difícil conversar. As pessoas não dialogam; elas despejam. Frases prontas, clichês arrotados, todo mundo sabe tudo! Mas se você pede para explicar, desmoronam. “É isso e ponto final.” E o ponto final engole um diálogo que nem começou. Tudo tão frágil.

Na cidade, o outro virou ruído. As pessoas querem falar, apenas elas, e muito. Sempre. Com aquele prazer narcísico de se ouvir, de se afirmar, de se impor. Falar é gozar, é se apaixonar pela própria voz. A voz do outro? Uma paisagem sonora boba, um zumbido que não chega ao cérebro, não atravessa os ouvidos.
O diálogo foi substituído por monólogos paralelos. Cada um gritando uma verdade verdadeira, sem pausa para o desconforto de aprender. E aprender exige se abrir, se mostrar vulnerável, deixar o outro entrar.
Meu pai me ensinava isso sem saber. Ele, com ideias tão diferentes das minhas, nunca me tratou como adversária. Ele perguntava, provocava, às vezes até ria quando eu me atrapalhava nas respostas! Mas nunca de forma ofensiva, nunca para me calar.
Conversa virou campo de batalha
A cidade, hoje, parece opressora para os conversadores. As conversas viraram campos de batalha, o objetivo não é entender, é vencer. E, no fim, ninguém vence. Só se cansa. Cansa de ouvir “Janja isso”, “Lula aquilo”, “Bolsonaro aquilo outro”. São palavras que não dizem nada, só sinalizam lados raivosos, de gente que espuma falando, baba uivando. E eu, que só queria tomar um café e falar da vida, me vejo enterrada por frases de efeito e palavras que significam, de verdade, muito pouco.
Pra hoje é isso, café e saudade de conversar sem tanta proteção. Sei que o desejo de se afirmar é humano, mas também nos aponta outros caminhos: o diálogo nasce quando o gozo de se ouvir cede espaço ao desejo de conhecer o outro. De conhecer de verdade a cidade que habita. Pra isso, as diferenças precisam ser convites, não ameaças. Precisa querer conversar como quem quer aprender. Sem pedras nas mãos e sem faca na língua.
Foto: grok_image freepik
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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Respostas de 3
Parabéns, Ana Paula! Realmente a conversação se tornou monólogos paralelos… E a bobalização, como se pode chamar a polarização, impera… Abraço!
Dialogar hoje está difícil, ao menos, complicado. Parece que querem ou queremos dissuadir, converter e/ou convencer o outro.
Meses atrás fui pego de surpresa tentando tomar um sorvete enquanto o sorveteiro discursava sobre política… e incrivelmente, quando alguém puxa conversa de polícita… sabemos para quem a conversa pende. Minha esposa logo notou que a “conversa” duraria e saiu de perto… eu sou mais bobo e achei que pararari logo se eu não desse bola… me enganei e o que seriam uns 5 sorvetes, foram só dois.
É só vc vir tomar café aqui em casa