Por Telma Elorza
“Quando meu neto tinha 1 ano e meio, minha filha o deixou comigo e sumiu no mundo, nunca deu notícias, nunca mandou dinheiro para ajudar. Consegui a guarda dele, criei com todo amor e carinho. Agora, 11 anos depois, ela reapareceu querendo pegar o menino de mim. Disse que agora está com a cabeça centrada, que tem condições de terminar de criar ele. Ele está dividido, entre ficar comigo e ir com ela, porque sempre teve curiosidade sobre ela. Eu não sei o que fazer, estou com medo de deixar ele ir e se magoar. Não consigo confiar nela.”
Recebi esse e-mail de uma avó que me deixou com o coração apertado. É ou não uma daquelas situações que parecem novela, mas doem bem mais porque é real? Bom, vamos lá, analisar o caso.
De um lado, temos uma avó que foi a verdadeira mãe do neto. Quem criou, alimentou, passou noites em claro nas doenças, organizou os aniversários, assinou os boletins escolares, ergueu o menino nas quedas e comemorou as conquista. O lar estável, o colo sempre pronto, a confiança construída. É um vínculo que não dá para apagar. Entregar o menino, agora, é, para seu coração, arriscar a segurança dele em troca de uma promessa que pode – ou não – se sustentar.
Do outro lado, temos a mãe biológica que errou feio demais. Mas é mãe. E por mais que o neto tenha sido criado longe dela, com todo amor e carinho, entendo a cabeça dele: a falta da mãe que o deixou pesa, a curiosidade sobre ela existe, existe um monte de “e se…” na cabecinha dele. A uma expectativa real, para ele, que tudo vai ser maravilhoso agora que a mãe está perto. Se a avó tentar cortar o contato reestabelecido, corre o risco de ouvir lá, num futuro não tão distante: “Você me afastou a minha mãe”. E isso pode virar uma ferida difícil de curar, daquelas que deixam cicatrizes profundas.
O que fazer, então?
Na minha opinião, o caminho do meio é o mais inteligente. Nem negar totalmente, nem entregar de bandeja. Testar. Permitir que sua filha se aproxime do seu neto, mas de forma gradual, com visitas, finais de semana juntos, férias. Para que aos poucos, o menino vá entendendo quem ela é de verdade, sem idealizações. E você conseguirá observar se essa mudança dela é firme ou fogo de palha.
Mas sugiro que tudo isso seja também validade por uma ajuda profissional. Psicólogos especializados em família e adolescência podem ajudar seu neto a lidar com tudo isso, inclusive a confusão de sentimentos. Porque, no fim, a questão não é sobre quem fica com ele, mas sobre como ele pode viver sem sentir que está perdendo alguém. Não é sobre você ou ela, mas sobre seu neto.
O que você não pode esquecer é que você já fez a parte mais difícil: deu amor, educação, valores. Seu neto, por mais que esteja feliz com a mãe por perto, não vai deixar de reconhecer quem esteve presente. Então, mesmo que ele decida se aproximar da mãe, não vai apagar a sua importância na vida dela.
Assim, pense bem antes de tomar qualquer atitude. Converse muito com seu neto (afinal, ele não é mais uma criancinha e pode entender perfeitamente uma boa conversa de igual para igual), exponha seus medos em relação à sua filha, seu amor e, principalmente, o seu apoio para ele, em qualquer situação. E lembre-o que vai estar sempre presente, se e quando ele precisar de alguém. Deixe-o seguro que, mesmo que ele queira ir morar com a mãe, você continuará amando-o como um filho e que sempre estará presente.
E eu reforço: esse menino não é troféu. Ele não precisa ser da avó ou da mãe. Ele pode estar com as duas, em uma relação saudável, mas ser sempre ele mesmo.
Se fosse comigo, eu agiria assim. Porque amar é também soltar para o mundo, mas com supervisão. É dar liberdade sem abandonar. A gente cria os filhos (no seu caso, neto) para ter autonomia, para saber voar pela vida. Então, pense nisso.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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