Por Telma Elorza
“Tenho 57 anos e fui professora a vida toda. Mas agora, próximo de me aposentar, quero realizar um sonho; fazer a faculdade de Direito. O problema é que marido e filhos (já criados) são contra. Dizem que preciso parar de “arrumar sarna para me coçar” e esperar a a aposentadoria. Mas sempre sonhei com a advocacia e acho que me daria muito bem na carreira. Agora estou em dúvidas. Será que eles estão certos e eu errada porque querer continuar sonhar e estudar?“
Amiga, eu sei como é isso. Estou com 62 anos e, a partir dos 50, a gente começa ouvir aquele velho discurso mofado de que agora chegou a hora de “descansar”, “ficar quieta” ou, pior ainda, “parar de inventar moda”. Com se a gente ainda não tivesse muita lenha para queimar, como se os sonhos tivessem prazo de validade e a ambição fosse exclusividade da juventude. Pois sim.
Para você, que dedicou sua vida à educação e agora quer trocar os livros didáticos pelos códigos jurídicos, a minha resposta é clara: vá em frente. Seu marido e seus filhos não têm que dar pitaco em sonho seu.
Uma coisa importante que quero esclarecer: querer cursar uma nova faculdade aos 57 anos não é “arrumar sarna para se coçar”. Arrumar sarna para se coçar seria adotar três filhos de Husky Siberiano em um apartamento pequeno. Aí você veria o que é problema. Fazer uma nova faculdade é investir em si mesma, expandir seus horizontes e provar que a vida não termina na aposentadoria. Ela só muda de fase.
Aliás, quem foi que decretou que aposentadoria significa aposentar também os sonhos de juventude? Existe algum artigo escondido na Constituição que proíba novos projetos depois de uma certa idade?
Seu marido e seus filhos provavelmente estão preocupados com você e sua saúde, mas também parecem estar presos naquela visão antiquada que, depois de décadas trabalhando, a mulher deve descansar (desde quando uma mulher casada descansa? Sempre tem uma casa para arrumar, uma louça para lavar, roupas para cuidar. A aposentadoria não muda isso). Mas, para uma pessoa cheia de vontade, energia e paixão por aprender, ficar parada pode ser muito pior sua atividade principal. Ficar em casa, fazendo trabalhos domésticos e crochê? Isso é a morte.
Professora aposentada? Vai nadar de braçada na nova profissão
E, convenhamos, uma professora já tem várias habilidades perfeitas para a advocacia. Sabe argumentar, tem paciência para lidar com pessoas diferentes e difíceis, consegue explicar termos complexos. E, o mais importante, sobreviveu a inúmeras reuniões escolares. Está mais que preparada para audiências e tribunais.
Além disso, maturidade é uma vantagem enorme. Enquanto muitos jovens entram na faculdade tentando descobrir quem são e se é aquilo mesmo que querem da vida, você já chega com bagagem, experiência de vida e profissional, além de disciplina. Isso significa foco, segurança e uma boa chance de se destacar e não pela idade.
Sem contar que, se algum colega de faculdade reclamar de cansaço por estudar para provas e fazer os trabalhos, você provavelmente poderá olhá-lo com elegância e dizer: “querido, eu já corrigi pilha de provas por décadas. Não faça drama”, kkk
O medo é natural. Toda grande mudança assusta, mas há uma diferença enorme entre sentir medo e deixar que ele decida sua vida. Se esse sonho sempre esteve guardado, agora é justamente o momento de realizá-lo. Quantas pessoas chegam ao leito de morte carregando o peso do “e se…”. E se eu tive feito isso ou aquilo? E se eu tivesse seguido meu sonho? E se eu tivesse tentado?
A verdade é bem simples. Sua vida pertence a você e não ao medo dos outros, nem ao comodismo alheio. E muito menos às expectativas familiares. Claro que ouvir quem amamos importa. Mas não pode permitir que eles enterrem nossos sonhos por conveniência.
Portanto, querida futura estudante de Direito, faça o vestibular, passe (com certeza, vai passar), matricule-se e entre na faculdade sonhada com o pé direito firme. Com a confiança de quem já viveu muito, aprendeu mais ainda e não está disposta a aceitar que sua história acabou só porque está aposentada.
E se alguém disser que você deveria apenas descansar, sorria e responda: “Descanso eu vejo depois, agora tenho que estudar jurisprudência”.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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Uma resposta
Tenho 42 e tenho vontade de cursar alguma engenharia ainda… não desista de seu sonho!