Por Telma Elorza
“Estou namorando há seis meses e meu namorado acabou de ficar desempregado. Agora ele que eu financie um carro para ele trabalhar com Uber. Eu ganho bem, poderia fazê-lo. Mas estou receosa porque não quero me envolver numa dívida de R$ 50 mil. E se ele não pagar? Como posso recusar sem perder o namorado?”
Vamos bater um papo reto, de mulher pra mulher, sem romantizar o que não precisa ser romantizado. Se você se meteu numa situação delicada: está namorando há seis meses, gosta do cara, mas tem dúvidas. Eu também teria. Se o cara ficou desempregado, ele não teria uma reserva para bancar sozinho esse “investimento”? Não sei detalhes, mas geralmente há verbas rescisórias e FGTS envolvidos em demissões, se forem sem justa causa. Ele poderia pegar parte (ou todo, sei lá o valor que recebeu) e dar uma boa entrada e começar a trabalhar e pagar o restante, né? Não precisaria pedir para você.
Mas pediu e agora você está nesta saia justa. Pois bem, vamos por partes.
Primeiro ponto: seis meses é um namoro, não um contrato vitalício. É muito pouco tempo, ainda estão na fase de se conhecerem. É nesta fase que você vai ver como ela lida com os próprios problemas, como reage quando as coisas apertam, se é parceira de verdade ou se só se mostra quando tudo está favorável. Não é tempo suficiente pra você entrar numa dívida que pode comprometer anos da sua vida. Uma dívida, aliás, que nem seria sua.
Uma coisa é ajudar com um currículo, indicar amigos que possam dar uma oportunidade, dividir uma marmita, ouvir o desabafo. Outra coisa bem diferente é colocar seu nome, seu histórico financeiro, sua paz mental e seu futuro em risco por alguém que você ainda está conhecendo.
Carro financiado não é só prestação. Tem seguro (ainda mais trabalhando com Uber, isso se torna essencial), manutenção, combustível, imprevistos, multas. E o mercado de Uber não está tão fácil como foi um dia. Está saturado, a gasolina está cara, os aplicativos mudam as regras o tempo todo, e ainda tem o risco de assaltos e acidentes.
Ou seja: além de uma dívida pesada, é uma aposta num cenário incerto. E essa aposta seria feita por você — e só por você. Porque se ele parar de pagar ou sumir, quem vai se ferrar com nome sujo, cobrança e ansiedade é você.
Amor não se mede em boletos
Se ele está te dizendo que só vai conseguir trabalhar se você financiar o carro, que é por vocês dois, que é um investimento… cuidado. Pode até ser que ele tenha boa intenção, mas uma relação saudável não se baseia em pressão emocional. Amor que exige prova com boleto não é amor, é chantagem emocional disfarçada de romantismo.
A pergunta que você deve se fazer é: por que ele não pode correr atrás do próprio crédito? Como eu disse lá em cima, ele poderia usar as verbas rescisórias para financiar. Mas se ele não tem nome limpo ou não consegue financiamento por conta própria, já é um sinal vermelho. E se ele não consegue pagar agora, como vai conseguir arcar com tudo isso depois?
Você tem todo o direito de dizer não. E não precisa se explicar demais, nem tentar parecer a boazinha. Seja firme, mas respeitosa. Diga algo como: “Olha, eu entendo que você está passando por uma fase difícil, e quero que você se recupere, que volte a trabalhar e se reestruture. Mas entrar numa dívida de R$ 50 mil no meu nome é uma responsabilidade muito grande, e eu não me sinto confortável com isso. Meu medo não é sobre você, é sobre o compromisso que isso representa, e o impacto que pode ter na minha vida se algo der errado. Espero que você entenda.”
Simples assim. Quem gosta de você de verdade vai entender seus limites. E se ele ficar bravo, a acusar de egoísmo ou tentar manipulá-la, isso é um sinal ainda mais claro de que ele não está preocupado com você. Ele está preocupado com o próprio plano, e quer que você banque.
Relação boa é parceria, não dependência
Todo mundo pode passar perrengue, ficar desempregado, ter que recomeçar. Mas o que diferencia uma pessoa madura de um aproveitador é a forma como ela lida com isso. Um cara responsável corre atrás, procura alternativas, aceita trampos temporários, estuda o mercado. Ele não joga a bomba no colo da namorada.
A parceria existe, sim, mas ela deve ser equilibrada. Você pode ajudar de outras formas — emocionalmente, com ideias, com apoio — sem colocar sua vida financeira em risco.
E se, no fim das contas, ele se afastar porque você disse “não”, talvez seja o melhor que podia acontecer. Tem coisa que parece perda, mas na real é livramento (sim, eu acredito nisso). E, sinceramente, é muito melhor seguir a vida com o nome limpo e a consciência tranquila do que com boleto vencido e coração pesado, né não?
Então, amiga, respire fundo, tome coragem e negue o pedido. Ele pode ser o melhor cara do mundo, mas nesse momento não vale que você comprometa seu futuro por dívidas alheias.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE.

Uma resposta
Concordo com a Telma. Ele tem uma opção mais “barata” que é alugar um carro. Pedir pra você financiar um carro acho demais, ainda mais em namoro, parece coisa de interesseiro.
Pedir um celular (dependendo), como presente de dias dos Namorados é aceitável, mas carro…
E se ele ameaçar te deixar, ficará claro o interesse