Fomos conhecer o bar criado pelo chef Henrique Fogaça, em Londrina e, olha, foi uma experiência maravilhosa
Telma Elorza
O LONDRINE̅NSE
Desde que o Cão Véio inaugurou em Londrina, há uns 9 meses, eu estava ensaiando ir conhecer. Sou fã do chef Henrique Fogaça, que conheci na condução do Master Chef e faz tempo que queria provar algo assinado por ele. Dinheiro para ir ao Sal, o primeiro restaurante dele, em São Paulo, não tinha. Mas seu estilo de cozinhar bate muito comigo, sei lá, algo na mágica que ele faz de misturar ingredientes simples e criar pratos únicos e deliciosos. Para quem não sabe ainda, também sou cozinheira (não chef, não tenho essa pretensão), e isso me encanta. Sempre tento seguir dicas e receitas dele e minhas experiências são bem sucedidas.
Aí surgiu o convite de conhecer a unidade em Londrina, que é uma franquia do gastropub que ele montou com o Fernando Badauí, vocalista da banda CPM22, em 2013. Mais que animada, eu estava empolgada. E na noite da última terça-feira, finalmente fui provar o tempero e pratos do Fogaça. Imagina uma criança solta numa loja de brinquedos. Era assim que me sentia.
Conhecemos os proprietários da unidade, Danielle e Elvis Filgueiras, que moram em Londrina há quase 25 anos. Os dois largaram carreiras bem sucedidas para empreender. Ela no serviço público municipal e ele, na indústria, queriam construir um negócio próprio. Ainda não sabiam exatamente o quê, até conhecerem o Cão Véio, em Curitiba. “A gente ouviu de um amigo nosso, chef de cozinha, que a comida era espetacular e ficamos curiosos. Então, um dia descendo para Guaratuba, passamos em Curitiba só para experimentar”, conta Elvis.

O local fez os dois se apaixonarem. “Eu fiquei espantando com a energia do lugar, com a comida maravilhosa. E o melhor, era um pub onde iam famílias, jovens, mulheres sozinhas e idosos, para comer e se divertir. Não um pub como os de Londrina que acabam virando baladas e só atraem jovens”, conta. Além disso, a comida fez Danielle rever alguns conceitos alimentares. “Eu, que não gostava de alguns ingredientes como legumes, me vi comendo um sanduíche vegetariano maravilhoso”, conta. Eles acabaram provando quase todo cardápio do espaço e resolveram pesquisar a franquia.
“Eu passei por todas as etapas para ser franqueado e a última era uma entrevista com o próprio Fogaça. Ele me perguntou se eu era investidor e eu respondi que sim. Na hora, eu não entendi muito bem a reação que ele teve, ficou meio desconfiado, decepcionado. Mas me perguntou na sequência se eu iria trabalhar no pub e quando disse que sim, ficou mais aliviado. Aí ele explicou: não queria só um investidor. Ele queria alguém que pensasse além dos números, custos e lucros. Alguém que tivesse o cuidado com a qualidade dos alimentos, com a perfeição do serviço e, claro, com o atendimento excepcional aos clientes”, conta.
Cão Véio até o talo
Até abrirem a casa, em agosto do ano passado, o casal teve que passar por vários processos, inclusive a escolha do local. “Foi uma pesquisa que indicou três pontos que seriam interessantes para a instalação. Nós escolhemos esse, na Gleba Palhano, apesar de não ser o mais barato. Mas, para nós, era o local que combinava melhor com a atmosfera do Cão Véio”, explica Elvis. Funcionários, barmans e chef foram treinados em São Paulo antes da abertura. Agora, a equipe da franquia vem periodicamente a Londrina para continuar o acompanhamento.
O gastropub segue exatamente todo o design – iluminação, mobiliário e decoração – e menu do Cão Véio original, que teve inspiração num pub de Londres. O diferencial do pub londrinense é o tamanho da casa. “Acho que só tem mais uma ou duas unidades, no máximo, que tem o mesmo tamanho, mas nosso ainda tem uma área externa, um diferencial que encantou o próprio Fogaça. Na festa da inauguração, quase tive que expulsá-lo, às 3 da manhã”, brinca.





Aliás, é a área externa que deixa o pub apto para todos os públicos, já que sábado sempre tem música ao vivo. “Antes, a gente colocava a banda na frente, mas percebemos que isso incomodava quem queria estar aqui para conversar e comer bem, sem ter que berrar para se fazer entender. Colocamos a banda na área externa, aos fundos, e a parte interna ficou com som ambiente em um volume que não atrapalha a conversa”, diz Elvis, e isso pudemos constatar nós mesmas. A música – rock sempre – permaneceu num volume agradável o tempo todo.

Comida com grife Fogaça
Mas vamos falar de comidas, que é o assunto dessa coluna. Posso falar com sinceridade que tudo que experimentamos nos deixou assombradas e foi uma das melhores experiências com restaurantes que já tive em Londrina. Além da comida toda perfeita e deliciosa, com um tempero incrível, um ambiente ótimo, com música na altura certa, a energia do lugar é muito boa. É mesmo uma “experiência”, como eu imaginava que seria quando provasse um prato de Henrique Fogaça. E o melhor de tudo: não achei caro. Os preços, pela qualidade e quantidade que comemos, estão até muito acessíveis. Há restaurantes muito mais caros aqui, em Londrina, que não entregam todos os sabores que experimentamos. Então vale muito a pena.
Embora tenha capacidade para atender muito mais pessoas, Elvis prefere limitar o número na casa a 80 pessoas por vez. E ele explica o fato de uma maneira lógica: “prefiro atender menos pessoas e servir a comida em, no máximo, 20 minutos/meia hora, do que atender 200 e deixá-las esperando por duas para comer”. Eu achei ótimo, porque se tem uma coisa que me deixa irritada (em nível perigoso para quem estiver por perto) é esperar muito tempo pela comida, quando estou com fome. E é verdade: nossa espera não chegou a 20 minutos pelos pratos.
O cardápio, bem variado, atende todos os gostos. Ficamos seriamente em dúvida sobre o que escolher. Infelizmente, no dia em que fomos, não tinha um dos carros-chefe da casa: uma entrada chamada Matilha (bolinhos de cupim cremoso servidos com pimenta defumada de maracujá), que sai por R$42. O fornecedor falhou na entrega do cupim, que, na casa, é assado na churrasqueira até quase derreter, outro diferencial do Cão Véio londrinense. Um motivo para voltar outro dia (como se eu precisasse de algum). Depois de muita confabulação entre nós e uma ajudinha de Elvis e Danielle, pedimos duas entradas, dois pratos principais e duas sobremesas.
Começamos com o Rottweiller (a maioria dos pratos e drinks tem nomes de raças de cães ou algo ligado a cães): um steak tartare de filé mignon servido com batatas chips e mix de folhas e um ovo de codorna frito na manteiga por cima. A Suzi Bońfím (que me acompanha sempre nas minhas empreitadas gastronômicas) nunca havia provado o prato francês feito com carne crua, e eu, que já provei alguns (mas não tinha gostado muito), ficamos encantadas. Estava uma perfeição.
É um prato simples, mas se você não souber fazer, meu amigo, não dá bom. Este foi incrível: a carne cortadinha perfeitamente na ponta da faca, os temperos na medida certa e o mix de castanhas dando uma crocância ao prato tornam o sabor tão incrível que você esquece que está comendo carne crua e devora tudo. Juntamente com o mix de folhas também bem temperado e as batatinhas, o prato é uma excelente opção para dividir (R$49) com alguém.

Para a outra entrada, quis arriscar numa área que a maioria das pessoas deixa de lado por medo da picância do jalapeño: pedi o Bicho do Mato (R$42), um prato sazonal, que vem com seis pimentas jalapeños assadas e recheadas com um ragu de linguiça e queijo gratinado, acompanhadas de tortilhas e um molho rose. O que eu posso dizer? Deixe o preconceito de lado e se jogue nesse prato. É maravilhoso. O jalapeño tem sim uma picância, mas não é aquela pimenta ardida demais. Além disso, o ragu de linguiça e o queijo gratinado amenizam o ardido e os sabores casam perfeitamente.

Nos principais, acredito que escolhemos uma das melhores opções da casa (tem vários outros que voltarei lá para provar), mas esse nos chamou a atenção: o Zorro (R$89), um prato para compartilhar com outra pessoa. Feito com tiras de filé mignon salteadas em óleo de gengibre, com tomates, berinjelas, cebola roxa, pimenta dedo de moça e queijo muçarela, vem acompanhado por quatro fatias de pão tostadas na manteiga. Você não vai acreditar no sabor desse prato até provar. Um prato simples e perfeito, de uma beleza incrível.

E, claro, tínhamos que provar um dos lanches da casa. Escolhemos o Pescador (R$49), um lanche com filé de tilápia (para fugir um pouco das carnes) empanado na farinha panko, maionese de alcaparra com limão siciliano e brotos de rúcula, servido no pão brioche. Magnífico. A tilápia estava crocante por fora e úmida por dentro e a maionese tem um sabor único. Ótima opção para quem gosta de peixe.

Acompanhando esse banquete, pedimos dois drinks: o Dálmata e o Galgo (R$38 cada). O Dálmata é um drink feito com vodka infusionada com baunilha, cítricos, gelo britado, raspas de limão taiti e hortelã, muito leve, saboroso e refrescante. Já o Galgo é feito com Nib Gin de pera (um gim artesanal brasileiro maravilhoso), saquê, cítricos e xarope de açúcar, hortelã e picles de pera. É um pouco mais encorpado que o Dálmata, mas ainda assim leve e delicioso. Mordiscar a fatia de pera que acompanha e tomar um gole do Galgo é uma experiência ótima.


O Elvis fez questão que provássemos o Cachorro Louco (R$19), um drink sem álcool e que é um dos mais pedidos da casa. Feito com suco de acerola com limão, maracujá, laranja, gengibre e mel, o resultado é divino. Amei. Além dele, provamos também o chopp Cão Véio Ipa (R$20 caneca de 300 ml e R$29, a de 500 ml), que estava perfeito.


Para encerrar, encaramos duas sobremesas. Eu escolhi o que mais me chamou a atenção: o Kraken (R$49), um milk-shake de doce de leite com rum envelhecido e caramelo salgado, finalizado com chantilly. Eu nunca havia provado um milk-shake que levasse rum e, claro, tinha simplesmente que experimentar. O que eu posso dizer é que ele mudou toda minha perspectiva em relação aos milk-shakes. Nunca mais tomarei outro sem lembrar com saudade do Kraken.

A Suzi escolheu a Primavera (R$34) – e lógico que provei – como sobremesa e estava magnífica. Feita com brigadeiro, mousse de maracujá, sorbet de manga, suspiro, hortelã e acompanhada de frutas tropicais como kiwi, banana e uva, trouxe uma explosão de sabores em cada colherada.

Cardápio de sábado
Uma coisa que nos deixou com água na boca foi o cardápio especial de sábado. No almoço é servida uma feijoada especial (individual a R$65); o Mastim Napolitano (R$69), um parmegiana de filé mignon, acompanhado por batatas rústicas com alho e alecrim e arroz com brócolis; e o Boxer (R$65), que me deixou salivando só de pensar: um arroz de cupim finalizado com manteiga de garrafa, chips de mandioca e ovo frito na manteiga. Gente, vou ter voltar lá para provar.
Aos sábados, a casa emenda com um happy hour especial também – aliás, todos os dias, o horário das 18 às 20 horas tem preços diferenciados em alguns drinks e porções – e à noite com música ao vivo.
Promoção dos namorados
Nos dias 12, 13 e 14 de junho, para comemorar o Dia dos Namorados, o Cão Véio vai fazer uma promoção para casais. Serão duas entradas, dois pratos principais e uma sobremesa por R$320 e quem fizer reserva antecipada por whatsapp ainda ganha duas taças de vinho. Haverá música ao vivo e terão dois horários para reservas, das 18h30 às 21h e das 21h às 23h30.
Serviço: Cão Véio fica na Rua Montevidéu, 347. Atende de terça a sexta das 18 à 00 hora e, aos sábados, das 12 às 00 hora. Reservas podem ser feitas pelo whats (43) 98836-5040.
Fotos: Suzi Bońfím
Leia mais colunas de Gastronomia
