Por Ângela Diana
A palavra “atelier” vem de um estrangeirismo, do francês que significa “lugar aonde o artista trabalha”.
O que é o atelier? É espaço físico ou mental? Como diz o grande artista Sérgio Fingermann (@sergiofingermann), o atelier também é um espaço mental, aonde juntamos peças que nos inspiram, livros, figuras, a tal da “bagunça organizada”… Qualquer coisa que seja um gatilho mental para podermos trabalha melhor.

Meu primeiro atelier foi o chão do meu quarto.
“O piso que o diga”! Acabei com o piso de madeira dele! Caia tinta e, para limpar, eu esfregava com Bombril, imagina né!
Era meu local de referências, lá estavam os livros prediletos, fotos, roupas… Era uma época que ter TV no quarto era um luxo, então só o aparelho de som, discos e fitas K7…
Imagina ficar horas fechada nesse quarto desenhando e pintando? Até hoje eu não sei como cabia tanta coisa naquele espaço!
Com o tempo as obras foram crescendo… Feliz ou infeliz, eu sou o tipo de artista que ama mural, que enxerga o mundo “grande”, que vê peças pequenas que tem potencial para “crescerem”…
Quando tive a chance de ter um espaço só para isso, agarrei com unhas e dentes. Foi a Oficina de Arte Contemporânea, junto com Mira Benvenuto (uma das minhas manas que a vida me deu!). Lá tínhamos uma sala cada uma, a sala grande dos alunos, banheiro, lugar para guardar as obras e a sala.
Ficava em cima da extinta farmácia Central, de frente com o Centro Comercial.
O lugar foi tão importante para nós que lá nasceram muitas obras, começamos a dar aulas, fizemos exposições e conheci o Rogério Rigoni (quando casamos fomos tirar foto na escadaria, do antigo atelier).

O prédio ainda existe, reformaram o espaço e, sim, toda a vez que passo por lá, penso que se eu fosse rica compraria o prédio.
Depois, fui para uma casa, perto da minha casa e fiquei quatro anos… Infelizmente, tive que voltar para minha casa.
O espaço que eu voltei a ter já era pequeno demais para mim.
E foi engraçado, que se eu pegar as obras que fiz nos ateliers é visível o quanto as obras ficaram grandes e depois encolheram.
O artista se adapta! A única coisa que não fazemos é “não fazer a arte”!
Às vezes, na vida do artista “parece” que ele “desistiu” de pintar, desenhar, esculpir… Mas não é nada disso! Conforme a vida muda, o espaço muda, as circunstâncias mudam, o artista vai se adaptando e trabalhando com seu processo de criação… Muita gente não entende que a palavra “processo” indica “uma ação continuada, contínua, uma marcha” e dura a vida toda.
Uma folha na calçada, uma frase, uma música, uma viagem, uma imagem em um filme, podem ser os gatilhos de obras que virão e conforme o espaço produzimos obras maiores ou menores.
No atelier, o ambiente todo está voltado para a arte
Qual a diferença de uma casa que vira atelier, um barracão só para isso? As referências! O ambiente todo está voltado para isso! Para a criação…
O artista tem a liberdade de colocar todas as referências que ele ou ela querem e precisam.
E tem um detalhe muito importante que para o leigo pode parecer besta: você não precisa reunir os materiais à noite para trabalhar no outro dia… aqueles pincéis que ficaram no pote de água que pode ficar em cima da mesa.
Diferente de quando estamos trabalhando no quarto, na mesa da cozinha, na bancada do banheiro (uma aluna minha pintava na bancada do banheiro!), eu não preciso tirar do lugar nenhum material.

Claro que não incentivo ninguém a pintar dentro de espaços fechados mais! Tive sérios problemas de saúde, por conta da alergia… Tintas a oleo, esmaltes e etc, que precisam de um solvente, jamais deveriam ser usadas em espaços fechados… Nem que você não tenha alergias ao cheiro, com o tempo os resíduos vão ficar nos seus pulmões e isso pode levar à morte (procure a história de Cândido Portinari)!
Hoje eu moro numa casa grande (ao menos para mim).
Minha casa é casa de artista, não temos luxos (não temos dinheiro para isso), nossos móveis não são novos, muitos vieram de heranças de avós e avôs.
Minha casa é tipo “Frankstein”… O que não podemos ter novo é totalmente transformado. É pintado, reformado e quem faz isso sou eu.

Na verdade, temos o essencial… Agora há coisas “estranhas”, com certeza! Pedaços de cimento celular, galhos secos, retalho de tecido, tintas, lápis, lápis de cor, escama de peixes, restos de azulejo… Tudo que não faz sentido ter numa casa normal, mas para um atelier faz.
Nada de valor comercial, nada que se eu sair na rua possa vender numa banquinha, mas para mim, como artista, pode fazer fazer parte de uma obra, de uma escultura, de um quadro, desenho…
Eu ainda sonho com um espaço que todo artista sonha: um ENORME galpão, iluminado, com ventiladores, grandes janelas, bancadas de trabalho, paredona para grandes quadros, uma bela cozinha aberta e uma bancada fixa com pia e tanque para deixar os pincéis!
Ou tudo mais que a imaginação quiser …
Sonho muito distante, nas atuais circunstâncias que a gente está vivendo… Além da situação econômica, em uma cidade que artista não tem incentivo nenhum para trabalhar. Caso, você não saiba, aí da existem cidades que a prefeitura agiliza espaços para artistas!
Aliás, uma curiosidade! Quantos ateliês de artistas você conhece? Quantas vezes já lhe disseram que para conhecer realmente um artista você deve conhecer seu ateliê?
Fica a dica!

Ângela Diana
Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos. Instagram angela_dianarte
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