Por Marcelo Minka
Há um tipo de cinema brasileiro que se vende como urgência moral, mas entrega apenas barulho. “Rio de Sangue”, de Gustavo Bonafé (O Doutrinador, 2018), flerta com esse risco desde o título, que promete violência, dor e intensidade. O que surpreende é que o filme tenta ser mais do que um thriller de resgate na Amazônia: quer tocar num Brasil de abandono, violência predatória e desgaste íntimo.
A premissa deste “Rio de Sangue” é direta: uma policial afastada, jurada de morte, tenta reconstruir a relação com a filha, médica em missão humanitária, até que o sequestro da jovem põe tudo em movimento. E o longa sabe que, para funcionar, não basta correr de um lado para outro; é preciso que esse conflito tenha peso.
Giovanna Antonelli (O Clone, 2001) entra em cena com firmeza e segura boa parte do filme no corpo e no olhar. Sua Patrícia não é desenhada como heroína idealizada. Há dureza, cansaço e um acúmulo de falhas que combina com a personagem. Alice Wegmann (Rensga Hits!, 2022), como Luiza, funciona menos como simples peça do suspense e mais como contraponto ético, representando outro Brasil, o das tentativas de cuidado em territórios onde o poder público costuma chegar tarde, mal ou armado. O filme aposta nessa tensão entre mãe e filha para dar densidade a uma trama de apelo popular.

“Rio de Sangue”: acertos e armadilhas
Um dos acertos está em tirar a ação do eixo urbano mais previsível e lançá-la num espaço em que natureza, crime e sobrevivência não entram como cartão postal, mas como pressão real sobre a narrativa. O Pará não aparece como paisagem ilustrativa, e sim como território dramático. Quando o cinema brasileiro acerta esse ponto, ele lembra que suspense não depende apenas de montagem acelerada, mas também de espaço, atmosfera e conflito. Nesse sentido, “Rio de Sangue” parece entender melhor do que muita produção recente que confunde escala com impacto.
Mas o filme esbarra numa armadilha conhecida, a de simplificar conflitos complexos para fazer a engrenagem da trama andar mais rápido. Garimpo ilegal, narcotráfico, ONG, povos indígenas e aparato policial formam um conjunto forte, mas difícil de equilibrar. Dependendo de como isso é conduzido, o resultado pode ser um painel tenso e vivo ou apenas um atalho dramático. A diferença está no grau de humanidade que o roteiro concede ao mundo em volta da protagonista. Quando respeita essas camadas, “Rio de Sangue” cresce. Quando apenas as usa como combustível para a ação, perde força.
Ainda assim, há mérito claro em recomendar “Rio de Sangue” nesta semana. Não por patriotismo automático, mas porque o filme reúne elementos cada vez mais raros na mesma estreia comercial: ambição popular, tema brasileiro e um elenco disposto a sustentar um drama físico e emocional. Num circuito dominado por franquias esgotadas e produtos descartáveis, isso já basta para torná-lo relevante.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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