Por Ana Paula Barcellos
Você sabia que os icônicos lenços e gravatas da Hermès, tecidos e estampados com maestria artesanal nos ateliês de Lyon, na França, carregam em sua essência um componente brasileiro quase secreto? Pois é, a fiação de seda Bratac, sediada aqui em Londrina, no interior do Paraná, é a principal fornecedora do fio que sustenta o império da Hermès.

Não é marketing. É fato. Enquanto a transformação final acontece do outro lado do oceano, a matéria-prima de excelência absoluta nasce a milhares de quilômetros de distância, nos casulos perfeitos cultivados com competência e a excelência de uma empresa brasileira. Num mercado global dominado pela Ásia, a Bratac é a única produtora de fios de seda em escala industrial de todo o Ocidente. Uma capacidade técnica e agrícola que transforma casulos em um fio praticamente inquebrável, de brilho intenso e brancura puríssima – exatamente o que permite aos lenços de Hermès alcançarem aquelas cores vibrantes e absolutamente perfeitas.

A relação de confiança entre a Bratac e a lendária maison francesa existe há mais de duas décadas. E fornecer de forma ininterrupta, sem oscilações, prova a verdadeira excelência do produto.
As redes sociais repercutiram recentemente o post de @diego_rezendelim sobre esse assunto. Muitos seguidores celebraram o orgulho nacional: “Incrível!”, escreveu uma usuária, destacando a exportação da seda paranaense. Outra comentou ter comprado recentemente um tecido da marca Libert (que trabalha com a Bratac) no Brasil, mandando fazer um lenço com uma costureira – e o resultado foi “maravilhoso”.
Mas nem tudo são flores e teve gente que lembrou disso: “O Brasil produz o melhor fio de seda, mas não o beneficia. Seguimos sendo país de commodities”, lamentou uma seguidora. Outros lembraram que a Bratac está aqui em Londrina-PR – a quarta maior cidade do Sul, que já foi a capital mundial do café – e que por trás da empresa existe um agronegócio sofisticado, com agricultores e trabalho empresarial que sustentam a qualidade e o diferencial, mas que não recebe o devido reconhecimento. “Lamentável nosso Agro achar que só podemos ser bons produzindo soja. Nossas riquezas agrícolas são enormes, pena ainda pensarmos como colônia”, completou um seguidor.

Temos a pureza do fio
Esses comentários revelam algo maior que uma simples curiosidade: o Brasil ainda carrega, em parte da sua autoimagem, uma mentalidade colonial que nos faz subestimar nossa própria capacidade de excelência. Produzimos o melhor, exportamos o melhor… e muitas vezes continuamos a nos ver apenas como fornecedores de matéria-prima bruta. A Bratac é a prova viva de que não precisamos. Temos a competência, o rigor técnico, a pureza do fio e a inteligência agrícola para ocupar espaço no topo da cadeia de valor do luxo mundial.

Refletir sobre isso é mais que falar de moda. É falar de identidade. É entender que o verdadeiro luxo não está só no nome francês bordado no canto do lenço, mas na história completa – da sericultura paranaense ao ateliê de Lyon. Quando reconhecemos e valorizamos essa origem, estamos, na verdade, tecendo um novo fio: o da autoestima brasileira. Um fio forte, brilhante e inquebrável. Como a seda que já veste o mundo.
E você, o que acha? Já sabia que parte do luxo que admiramos vem do nosso próprio quintal?
Foto principal: Hermès
Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate.
Me siga no Instagram @experienciasdecabide e @yopaulab
Leia todas as colunas Em Alta
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

