Por Marcelo Minka
Há filmes que voltam porque ainda têm algo a dizer. E há filmes que voltam porque o mercado descobriu que a saudade também vende ingresso. “O Diabo Veste Prada 2”, de David Frankel (O Diabo Veste Prada, 2006), caminha perigosamente entre essas duas possibilidades, mas tem uma vantagem rara: seus personagens envelheceram junto com o público. Vinte anos depois do original, Miranda Priestly, Andy Sachs, Emily Charlton e Nigel Kipling não pertencem mais apenas ao universo da moda. Eles pertencem a uma memória coletiva sobre ambição, trabalho, vaidade, humilhação elegante e aquele tipo de chefe que não grita porque sabe que o silêncio pode ser muito mais cruel.
O primeiro “O Diabo Veste Prada” virou clássico popular porque parecia leve, mas não era bobo. Por trás dos casacos, bolsas e olhares congelantes, havia uma pergunta bastante séria: quanto de si uma pessoa aceita perder para ser admitida num mundo considerado sofisticado? A sequência retoma esse conflito em outro tempo. A revista impressa já não reina sozinha, a moda virou conteúdo, o luxo precisa posar de consciência social e Miranda, antes soberana absoluta de um império editorial, agora enfrenta um mundo em que até o poder precisa negociar sua própria relevância.
Meryl Streep volta a Miranda com a precisão de quem nunca precisou exagerar para dominar uma cena. Seu grande talento sempre foi transformar economia em ameaça. Anne Hathaway, como Andy, já não carrega apenas a ingenuidade da jovem assistente; carrega a experiência de quem descobriu que sair de um sistema não significa estar livre dele. Emily Blunt, como Emily, é a presença mais interessante nesse retorno: antes satélite de Miranda, agora figura de poder, ela permite que o filme olhe para a sucessão, para a vingança elegante e para a forma como antigas vítimas também aprendem a reproduzir os códigos dos vencedores.

O Diabo Veste Prada 2 e seu grande risco
O risco de “O Diabo Veste Prada 2” é evidente: virar um desfile de referências ao filme anterior, uma vitrine de frases reconhecíveis, roupas impecáveis e nostalgia bem iluminada. Quando cede a isso, o filme perde força dramática e se aproxima do luxo embalado para fãs. Mas, quando observa a transformação do trabalho criativo em performance permanente, encontra um nervo contemporâneo. Hoje todos vivem um pouco dentro da Runway: editando a própria imagem, medindo relevância, tentando parecer indispensáveis em ambientes que descartam pessoas com a mesma frieza com que trocam uma capa de revista.
O filme não precisa superar o original para justificar sua existência. Sua melhor qualidade está em perceber que o verdadeiro diabo já não veste apenas Prada. Ele veste produtividade, juventude eterna, presença digital, bom gosto obrigatório e a ilusão de que sucesso compensa qualquer desgaste. Miranda continua fascinante, mas o mundo ao redor dela ficou mais parecido com ela. E essa é a ironia mais afiada da sequência: saímos do cinema rindo, lembrando das roupas, das frases e dos gestos, mas com a incômoda sensação de que a passarela agora passa também pela nossa própria vida.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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