Por Marcelo Minka
Mestres do Universo chega aos cinemas carregando uma pergunta que Hollywood prefere não responder: quantas vezes ainda será possível vender a mesma infância para o mesmo público? He-Man nasceu como brinquedo, virou desenho, atravessou gerações como memória afetiva e agora retorna em forma de superprodução, com todos os sinais visíveis de uma indústria que aprendeu a transformar nostalgia em seguro financeiro.
O filme dirigido por Travis Knight (Kubo e as Cordas Mágicas, 2016) tem uma vantagem inicial, a de não tratar seu material de origem como vergonha. Coisa que muitos reboots não conseguem fazer. Em Mestres do Universo há cor, escala, aventura, humor e uma tentativa clara de preservar o imaginário exagerado de Eternia, esse território onde fantasia medieval, ficção científica e brinquedo de prateleira sempre conviveram sem constrangimentos. O problema é que a fidelidade ao espírito original não basta quando o cinema precisa se afirmar para além da lembrança.
Nicholas Galitzine (Vermelho, Branco e Sangue Azul, 2023) assume o Príncipe Adam/He-Man com empenho físico e certa vulnerabilidade, tentando dar humanidade a um personagem que sempre foi mais ícone visual do que figura dramática, mais de plástico do que de carne. Camila Mendes (Riverdale, 2017) traz firmeza a Teela, enquanto Idris Elba (Luther, 2010) esbanja presença a um universo que precisa de atores mais fortes do que seus diálogos. Jared Leto (Clube de Compras Dallas, 2013), como Skeletor, percebe que vilões desse tipo não sobrevivem pela sutileza, mas pelo excesso. Ele abraça a caricatura, e isso funciona melhor do que as tentativas do roteiro de parecer moderno.
O ponto mais interessante do filme está justamente em sua contradição. Mestres do Universo quer ser aventura sincera, comentário nostálgico e atualização pop ao mesmo tempo. Em alguns momentos, essa mistura encontra energia. Em outros, o filme parece inseguro diante do próprio legado, tentando provar que He-Man ainda tem lugar num mundo saturado de franquias, multiversos e heróis reciclados.
Reconhecimentos em Mestres do Universo

A questão não é se há prazer em rever a Espada do Poder, o Castelo de Grayskull ou a velha oposição entre luz e sombra, é óbvio que há. O cinema popular também vive desses reconhecimentos baratos. A questão é se Mestres do Universo consegue transformar lembrança em experiência nova. E aí o resultado é mais irregular. Quando confia na aventura, funciona. Quando tenta justificar sua existência com piscadelas, piadas e camadas de autoconsciência, perde força.
Ainda assim, seria injusto tratar Mestres do Universo apenas como produto sem alma. Há competência visual, ritmo e uma tentativa honesta de divertir. O limite está no próprio modelo. Hollywood continua confundindo memória com imaginação. Reabrir o baú dos anos 1980 pode render dimdim para os cofres, mas não substitui invenção. Mestres do Universo diverte, tem momentos de brilho e deve agradar quem cresceu sob o grito “Eu tenho a força”.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
Me siga no Instagram: @studio6minka
Leia todas as colunas de Cinema
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

