Por Marcelo Minka
Neste estranho fim de semana com inverno extemporâneo, não temos estreias relevantes nas telonas da cidade. Vamos falar sobre um filme lançado dia 23 deste mês, ainda em cartaz, uma cinebiografia que conjuga infância, lápis e sonho.
Maurício de Sousa – O Filme é dirigido por Pedro Vasconcelos (Dois Filhos de Francisco, 2005) e codirigido por Rafael Salgado (Minha Fama de Mau, 2019). A trama nos arrasta para a trajetória de desenhista Maurício de Sousa, desde os rascunhos de infância em Mogi das Cruzes até o lançamento da sua primeira revistinha nos anos 60, Bidu nº 01.
O filme aposta numa narrativa de puro otimismo, o menino que rabiscava embaixo da mesa e descrevia futuros universos, o jovem que fez do desenhar não só uma ocupação, mas uma missão de vida. É um retrato que exalta a imaginação como motor, e o riso infantil como força criativa. Porém, ao escolher essa linha de leveza, muitas vezes evitando o confronto mais duro da realidade, Maurício de Sousa – O Filme revela suas limitações.
A estrutura é eminentemente celebrativa, as dificuldades existiram, mas são tratadas com suavidade quase iconográfica: a avó, vivida por Elizabeth Savalla (Carlota Joaquina, 1995) e o pai, o traço que vira personagem, o herói da caneta. Faltam, no entanto, rupturas ou reflexões mais densas, o empresário por trás do mito, os bastidores empresariais, ou a sombra das omissões no meio editorial, tudo isso recebe menção breve, quase como nota de rodapé.

Elementos visuais simpáticos em Maurício de Sousa – O Filme
Tecnicamente, Maurício de Sousa – O Filme faz uso de elementos visuais simpáticos, quadros que imitam a arte dos gibis, inserções de ilustrações, planos fixos que evocam o traço original de Maurício, o que agrada o fã da Turma da Mônica. O elenco apresenta o filho de Maurício, Mauro Sousa, como o pai protagonista, trazendo notável semelhança e carisma; Natália Lage (O Homem do Futuro, 2011) e Thati Lopes (Internet – O Filme, 2017) ajudam a compor esse retrato com afeto. Ainda assim, o ritmo se mostra apressado, décadas comprimidas em pouco mais de 100 minutos levam o filme a pular etapas e deixar algumas lacunas.
Um dos momentos mais tocantes é o reencontro de Maurício com o momento exato em que desenha a Mônica pela primeira vez, cena que emociona e justifica a existência do filme. Há ali uma espécie de epifania narrativa, um instante em que a arte parece tocar o sagrado. Mas esse é também um dos poucos momentos em que a obra ousa parar para contemplar, em vez de correr para o próximo quadro.
Apesar dos pesares, o filme não é apenas nostalgia, é uma cinebiografia sincera que convida a celebrar o traço brasileiro. Para os fãs dos quadrinhos.
Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka
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