Quase três décadas depois, as irmãs Owens retornam ao cinema. O novo filme entende que existe dinheiro na nostalgia, mas descobre que memória afetiva não se ressuscita apenas repetindo um feitiço
Por Marcelo Minka
Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor estreia nesta semana em Londrina, 28 anos depois de Sandra Bullock (Gravidade, 2013) e Nicole Kidman (As Horas, 2002) interpretarem pela primeira vez Sally e Gillian Owens. Não é relançamento nem revisão comemorativa, e sim uma continuação construída sobre uma pergunta que Hollywood aprendeu a fazer com enorme eficiência, se o público ainda ama alguma coisa, por que deixá-la no passado?
Há uma razão comercial bastante clara para o retorno. Da Magia à Sedução não foi um fenômeno quando chegou aos cinemas em 1998 e tampouco recebeu grande acolhida da crítica. O filme ganhou outra vida depois. Cresceu no vídeo doméstico, atravessou a televisão, chegou ao streaming e encontrou nas redes sociais uma geração disposta a tratá-lo como objeto de culto.
A produtora Denise Di Novi (Edward Mãos de Tesoura, 1990) reconheceu que a pressão dos fãs aumentou durante anos e que a intensa circulação do filme no TikTok e no Instagram mostrou ao estúdio que ainda havia um mercado ali. Alice Hoffman (O Livro da Magia, 2021) também havia levado a família Owens adiante na literatura. A equação ficou pronta, personagens conhecidos, duas estrelas de primeira grandeza, uma base de fãs ativa e uma propriedade intelectual já testada.
Susanne Bier (Em um Mundo Melhor, 2010) toma uma decisão inteligente ao não fingir que o tempo parou. Sally e Gillian envelheceram, as filhas cresceram e a velha maldição da família Owens deixou de ser apenas um problema amoroso. O filme passa a olhar para aquilo que uma geração entrega à seguinte, sobretudo os medos que os pais chamam de proteção. Joey King (The Act, 2019) e Maisie Williams (Game of Thrones, 2011) entram nessa linhagem como filhas que recebem muito mais do que poderes mágicos. Herdam silêncios, culpas e decisões tomadas antes que pudessem escolher qualquer coisa.
Magia como linguagem familiar
É aí que a continuação encontra sua parte mais forte. A bruxaria funciona melhor como linguagem para falar de família do que como espetáculo. Bullock dá a Sally uma rigidez que combina com uma mulher que passou anos tentando controlar aquilo que não podia controlar. Kidman mantém Gillian mais instintiva, menos domesticada. Quando as duas dividem a cena, o filme ganha uma intimidade que nenhuma referência ao original consegue fabricar.

O problema aparece quando Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor começa a admirar demais a própria herança. A casa, os rituais, os objetos, as músicas e os acenos ao primeiro longa estão ali para produzir reconhecimento. O espectador identifica, sorri e segue adiante, mas o reconhecimento não é emoção. O filme de 1998 tinha uma mistura estranha de romance, morte, humor, desejo e feitiçaria. Era irregular e, justamente por isso, possuía uma personalidade difícil de domesticar. O novo filme é mais consciente do que representa, mais atento ao que os fãs esperam e menos disposto a correr riscos. A nostalgia entra como ingrediente e também como freio.
A recepção inicial da crítica confirma esse incômodo. Nesta sexta-feira, o Rotten Tomatoes registrou 35% de aprovação entre 63 críticas. O público ainda não possui quantidade suficiente de avaliações verificadas para que o site apresente um percentual consolidado. É uma ironia adequada, o primeiro Da Magia à Sedução também foi recebido com frieza e precisou de décadas para conquistar o afeto que agora financia sua continuação. O que antes aconteceu espontaneamente virou estratégia de lançamento.
Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor funciona quando aceita que 28 anos passaram e enfraquece quando tenta convencer o público de que é possível voltar para casa, encontrando tudo exatamente no mesmo lugar. O cinema sempre viveu de fantasmas, lembranças e reencontros. A indústria descobriu como transformar esses fantasmas em franquias.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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