Por Marcelo Minka
O medo real raramente tem começo, meio e fim. Ele chega fragmentado, mistura violência, doenças, crises ambientais e a sensação de que alguma coisa pode acontecer. O cinema-catástrofe, com filmes como Águas Mortais, oferece uma ameaça visível, personagens definidos e uns 100 minutos para uma resolução. É por isso que filmes desse tipo continuam atraindo espectadores.
Dirigido por Renny Harlin, de Do Fundo do Mar (1999), Águas Mortais acompanha um voo entre Los Angeles e Xangai que cai no oceano. Sobreviver ao acidente, porém, é apenas o primeiro problema. Cercados por tubarões e presos entre partes da aeronave que afundam, os passageiros precisam controlar o medo e cooperar. No elenco estão Aaron Eckhart, de Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), e Ben Kingsley, vencedor do Oscar por Gandhi (1982).
Harlin conhece o cinema de ação e sabe construir movimento, urgência e expectativa. A queda do avião é a sequência mais eficiente do filme, conduzida com clareza espacial e um crescente sentimento de descontrole. Depois disso, Águas Mortais passa a repetir uma fórmula conhecida. Surgem os personagens facilmente identificáveis, o egoísta, o corajoso, o covarde, aquele que aprenderá a colaborar. Os diálogos explicam demais e a narrativa distribui perigos em intervalos calculados. Nada disso é novo, mas o filme não parece interessado em novidades. Seu objetivo é fazer a engrenagem funcionar.

Águas Mortais e o prazer do medo controlado
O filme-catástrofe transforma um grupo de desconhecidos numa sociedade em miniatura. Quando a ordem cotidiana desaparece, dinheiro, profissão e prestígio perdem parte de seu valor. Restam o corpo vulnerável, a capacidade de agir e a disposição para ajudar. Essas narrativas encenam uma fantasia de reinício: diante da ameaça comum, as diferenças podem ser momentaneamente suspensas e a comunidade, reconstruída. É uma visão reconfortante, embora bastante idealizada.
Existe ainda o prazer do medo controlado. O espectador experimenta tensão, aceleração e expectativa, mas permanece protegido pela poltrona. O perigo é intenso, porém delimitado. Diferentemente das ansiedades contemporâneas, o tubarão pode ser visto, evitado e vencido. A ficção converte angústias abstratas em problemas concretos.
Há, contudo, uma contradição reveladora em Águas Mortais. O desastre começa numa máquina criada pelo ser humano, mas o filme desloca rapidamente a culpa para a natureza, transformando o animal em monstro. É mais fácil temer uma barbatana do que discutir a fragilidade dos sistemas tecnológicos dos quais dependemos. O tubarão funciona menos como animal do que como depósito simbólico para nossos medos.
Águas Mortais não renova o gênero nem escapa de seus clichês. Ainda assim, sua permanência nas telas diz alguma coisa sobre nós. Vivemos em meio a ameaças difusas e assistir a um desastre organizado pela narrativa pode ser estranhamente tranquilizador. Durante duas horas, sobreviver parece depender de coragem, cooperação e alguma sorte. Depois saímos intactos do cinema.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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