O Gênio do Crime conversa com a memória afetiva da matinê

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Por Marcelo Minka

O Gênio do Crime, dirigido por Lipe Binder (Arcanjo Renegado, 2020), parte de uma premissa quase antiga demais para o nosso tempo: crianças, escola, álbum de figurinhas, Copa do Mundo, investigação, falsificação. Atualmente, com a infância parece cada vez mais mediada por telas, ansiedade e vigilância adulta, o filme aposta numa ideia simples e quase esquecida: a aventura começa quando as crianças ainda podem circular pelo mundo e desconfiar dele.

Baseado no clássico infanto-juvenil de João Carlos Marinho (O Gênio do Crime, 1969), o longa acompanha um grupo de amigos empenhado em completar um álbum de figurinhas durante a febre da Copa. A brincadeira, naturalmente, deixa de ser apenas brincadeira quando surge um esquema de falsificação. A partir daí, o que parecia passatempo escolar vira mistério, e o filme reencontra uma tradição muito brasileira: a da esperteza como força narrativa. Não a esperteza calejada dos adultos, mas aquela inteligência infantil que nasce da observação, da curiosidade e da recusa em aceitar que o mundo funcione apenas como os mais velhos dizem que funciona.

O mérito maior de O Gênio do Crime está em entender que uma simples figurinha não é um detalhe. Ela é objeto de desejo, moeda social, símbolo de pertencimento. Quem já viveu uma febre coletiva sabe que elas podem organizar amizades, disputas, hierarquias e pequenas tragédias. O álbum da Copa, nesse sentido, é menos sobre futebol do que sobre imaginação compartilhada. Ele cria um país paralelo, feito de troca, espera, repetição e promessa. O filme acerta quando percebe que a infância também é uma economia de afetos, de prestígio, de pequenas posses.

O Gênio do Crime tenta recuperar um tipo de cinema popular brasileiro, o filme de matinê, de turma, de escola, de pequenas conspirações
Fotos: Divulgação

O Gênio do Crime confia no mistério

No elenco adulto do filme, nomes como Ailton Graça (Carandiru, 2003), Douglas Silva (Cidade de Deus, 2002) e Marcos Veras (Vai que Cola, 2013) ajudam a dar corpo à narrativa, sem roubar o protagonismo das crianças. Esse equilíbrio é importante. Muitos filmes familiares brasileiros tratam o público infantil como desculpa para excesso de gritaria, caricatura ou lição moral. O Gênio do Crime confia no mistério e na dinâmica do grupo, sem transformar cada cena em explicação. Há uma leveza ali, mas também uma camada interessante sobre falsificação, consumo e credulidade.

A falsificação de figurinhas parece uma ameaça pequena, quase ingênua. Mas é aí que O Gênio do Crime encontra sua força. Vivemos cercados de cópias, fraudes, imagens manipuladas, promessas falsas e mercadorias afetivas. A criança que aprende a distinguir uma figurinha verdadeira de uma falsa está, sem saber, ensaiando uma pergunta maior: em que ainda se pode confiar? O filme não transforma isso em discurso, ele deixa que a aventura carregue essa inquietação.

O Gênio do Crime não é um grande filme no sentido solene do termo, e nem quer ser. Seu valor está em outro lugar: na tentativa de recuperar um tipo de cinema popular brasileiro que conversa com a memória sem virar peça de museu. É um filme de matinê, de turma, de escola, de cidade, de pequenas conspirações. E isso, em tempos de IA, carrega muita beleza. Ver crianças brasileiras correndo atrás de um mistério próprio tem uma força discreta e real.

O filme nos lembra que a imaginação não precisa ser monumental. Às vezes, ela começa num pacote de figurinhas, numa suspeita no pátio da escola, num amigo que sabe demais, numa cidade que ainda permite esconderijos. E é por isso que O Gênio do Crime agrada: porque devolve à infância aquilo que ela nunca deveria ter perdido completamente, o direito ao segredo, ao risco leve, à descoberta e à aventura.

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.

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