Por André Luiz Lima
Na Arte dos Encontros relembramos momentos importantes que nos trazem a energia daquele instante em que tomamos a decisão de continuar, de caminhar, de ir adiante — ou seja, de superação.
Hoje, as mãos que se levantam são novamente do meu encontro com o menino José, que pode ser o menino André ou nossa criança de olhar inocente, querendo brincar. O menino que encontrei em uma praça, quando fui contar histórias por esse mundão afora.
Essa história já passou por aqui, mas precisamos lembrar sempre.
Fui convidado para dar uma palestra. Era um momento muito delicado, pós-pandemia. Os eventos estavam voltando, e eu iria me apresentar em um evento grande para empresários e empreendedores. Nada melhor do que trazer a arte nesse momento como superação.
O período da pandemia nos desestruturou. Mudou rotinas, relações, certezas. Foi um tempo de incerteza coletiva, de solidão, de perdas. E também de reencontros com o essencial — para quem se permitiu. Superar, naquele contexto, era mais do que vencer um desafio: era reaprender a viver.
O formato da palestra era novo, o público era diferente e, de certa forma, eu também era outro.
Mas eu sabia do que queria falar. Sabia do que vinha vivendo. E sabia, acima de tudo, que era a arte quem me guiaria naquele momento.

Superação de desafios
A palestra se chamava “O Olhar Humano na Superação de Desafios”, e, para mim, não havia como falar de superação sem convidar a plateia a participar do processo comigo. Dividi com eles não apenas conceitos, mas práticas, vivências. Pedi que me acompanhassem, que arriscassem, que deixassem o controle e entrassem no fluxo. Assim como eu estava fazendo ali, com eles. Entramos juntos no desconhecido, administrando os riscos e sabendo onde eu queria chegar.
Claro que eu comecei esse momento com um texto importante para mim, que fala sobre os sonhos.
Essa é a forma de dizer que, para tudo, a gente se prepara — e principalmente para os nossos sonhos.
Trazer a plateia para o lúdico e também ensinar um caminho. E assim a arte nos abençoa.
E como sempre falo nos meus cursos, entre trancos e barrancos a gente chega até o final. Olhe para o foco, e vamos administrando o caminho.
O autoconhecimento como ferramenta essencial.
O corpo como instrumento e a importância de saber ver e, principalmente, ouvir.
Propus um exercício simples, mas poderoso: coluna ereta, postura de rei, de rainha, para que a respiração pudesse fluir, a mente silenciar e o estado de atenção se instalar.


Como teria que passar essa mensagem em 30 minutos, quis ir além do lúdico, das risadas, dos improvisos, das técnicas… Quis mostrar em uma história — que já compartilhei aqui, mas que retorna agora com ainda mais força — tudo o que eu quis transmitir naquela palestra.
Era época de Natal, e eu estava trabalhando no projeto Comboio Cultural, da Secretaria da Cultura do Paraná — um lindo resgate da tradição dos saltimbancos, onde artistas percorriam o estado levando poesia, música e encanto.

Foi numa dessas viagens que conheci José, um menino de pés descalços, camiseta azul-turquesa encardida de brincar, que me olhava de longe enquanto eu me preparava para contar histórias numa praça. Um avião passava no céu e, naquele instante, algo mágico aconteceu: os olhos de José brilharam como se reconhecessem um chamado.
Convidei-o a participar da história da Onça e do Coelho. Fui orientando seus gestos, sua presença, sua postura. Disse a ele:
— Coluna reta, José. Pisa com força. Olhar firme. Respira. Assim, isso… Agora você é um rei.
E coloquei o pandeiro na sua cabeça como uma coroa.
Ele sorriu. Um sorriso que continha toda a infância, toda a esperança, toda a beleza de quem acredita.
— Eu sou um rei, tio?
— É sim, José. Agora você é um rei.
E naquele instante, ele me deu um presente. Apontou para o céu, viu uma estrela nascer, e disse:
— Aquela estrela é sua, tio. Mas deixa ela lá. Quando olhar para o céu, vai saber que eu te amo, tio.
José me ensinou algo profundo naquele dia: que a verdadeira realeza nasce quando alguém nos olha nos olhos e nos reconhece.
E que o amor pode se manifestar em gestos tão simples quanto uma estrela apontada no céu.
Na verdade, todos somos reis e rainhas quando reconhecemos nosso próprio valor e nos conectamos com o outro a partir do coração.
Assim como na palestra, assim como na vida, os encontros verdadeiros acontecem quando nos permitimos atravessar o desconhecido — com coragem, presença e um toque de arte.
Sigo o coração.
Eu me abro para a ideia de que talvez o medo venha só porque tentei dar significado a um mundo que não pode me oferecer respostas verdadeiras.
Eu solto a ideia de ter que entender tudo.
Viva a Vida, André!

André Luiz Lima
Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural. Siga os Instagrans de André, @allconnecting e @aondevaiandre
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Respostas de 2
Lindo texto, André. Parabéns.
Sempre tocada da tua profunda sensibilidade e leveza..viajando contigo neste encontro!!