Série Laudato Si: religiões, espiritualidade e nova ética planetária

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Por professor Renato Munhoz

Na continuidade de nossa série especial sobre a encíclica Laudato Si’, voltamos nosso olhar para um aspecto muitas vezes invisibilizado no debate ambiental: a força espiritual das religiões e sua capacidade de gerar uma nova ética planetária, mais sensível, integradora e profundamente conectada com os sinais do tempo.

A encíclica, escrita pelas mãos e pelo coração do Papa Francisco, é clara ao propor que o cuidado com a Casa Comum não é apenas uma questão técnica, mas espiritual e cultural. No parágrafo 64, ele afirma: “Se o ser humano se declara autônomo da realidade e se constitui dominador absoluto, a própria base da sua existência se desmorona…”

O diálogo interreligioso

Dessa teologia emerge uma ética que convida ao diálogo interreligioso e também ao encontro com os sem religião, criando o que Francisco chama de “uma nova solidariedade universal” (Laudato Si’, §14). Ele se aproxima aqui daquilo que Leonardo Boff chama de ecoespiritualidade, uma espiritualidade que não se separa da matéria, que vê Deus pulsando na Terra, nos rios, nas matas e nos corpos. Em seu livro “Ecologia: Grito da Terra, Grito dos Pobres”, Boff nos alerta: “A crise ecológica é o grito da Terra e o grito dos pobres, que são vítimas da mesma lógica perversa de dominação e exploração.”

Francisco e Boff, cada um à sua maneira, estão nos dizendo que as religiões não podem se omitir. Pelo contrário, devem assumir um papel propositivo, formando consciências e corações voltados à justiça socioambiental. Isso significa romper com o antropocentrismo moderno e abraçar uma ética do cuidado, da interdependência e da responsabilidade compartilhada.

Uma nova cosmovisão

É nesse mesmo fluxo que ecoam as palavras de Ailton Krenak, pensador indígena e espiritual. Para ele, a humanidade perdeu o sentido de pertencimento à Terra, e isso tem consequências devastadoras:

“Nós precisamos adiar o fim do mundo”, diz ele em seu livro homônimo. Adiar o fim do mundo, para Krenak, passa por recuperar modos de vida, cosmovisões e práticas espirituais que respeitam os ciclos da natureza e entendem o mundo como um ser vivo.

O resgate da dimensão espiritual — presente nas tradições indígenas, nas religiões afro-brasileiras, no budismo, no islamismo, no cristianismo e em tantas outras formas de religiosidade — é central para formar uma nova consciência ecológica. Uma espiritualidade que não se refugia do mundo, mas mergulha nele com amor, responsabilidade e compromisso.

Francisco diz: “Não haverá uma nova relação com a natureza sem um novo ser humano”. (Laudato Si’, §118)

Uma nova ética planetária

E é nesse novo ser humano que habitam as sementes da nova ética planetária — uma ética que nasce do encontro entre ciência e fé, entre razão e mito, entre o cuidado com a Terra e o cuidado com o outro. A crise ambiental não será superada apenas com acordos internacionais ou com tecnologias limpas, mas com uma conversão do coração, com uma mudança de paradigma civilizacional.

Estamos, como humanidade, convidados a formar uma grande aldeia do pensamento, como diz o texto da Laudato Si’, onde todas as vozes são escutadas: dos saberes tradicionais aos conhecimentos científicos, das orações dos monges às cantigas dos terreiros, dos clamores dos povos indígenas às encíclicas da Igreja.

Em tempos de colapso climático, desigualdades gritantes e exaustão espiritual, a religião — quando comprometida com a vida e com a justiça — é uma força transformadora. É tempo de espiritualidade comprometida, ética relacional, e de uma fé que se dobra ao chão e escuta o clamor da Terra e dos pobres, como Francisco nos ensinou.

Professor Renato Munhoz

Francisco de Roma seguiu os passos de Francisco de Assis, que tinha uma espiritualidade ecológica. No Laudato Si, o papa faz uma convocação global para uma maior consciência ecológica

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.

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