Por Edmilson Palermo Soares
O Vale de Casablanca é a grande referência de viticultura de clima frio do Chile, responsável por transformar a imagem do país no cenário internacional, a partir do final do século XX, ao provar que o terroir chileno vai muito além dos tintos potentes e ensolarados do Vale Central.
Até o início dos anos 1980, a região de Casablanca era considerada imprópria para a viticultura de qualidade por produtores tradicionais, sendo usada quase exclusivamente para pastagem e cultivo de gado.
A virada histórica aconteceu em 1982, liderada pelo agrônomo e enólogo Pablo Morandé.
Inspirado nas semelhanças climáticas entre Casablanca e regiões californianas como Carneros e Napa Valley, Morandé identificou que as manhãs frias e a brisa do Oceano Pacífico seriam ideais para castas brancas e tintas delicadas.
Ele plantou os primeiros vinhedos da vinícola Morandé e, em poucos anos, os resultados impressionaram a crítica mundial, iniciando uma verdadeira corrida de investidores e produtores que transformaram o vale na primeira Denominação de Origem (D.O.) marítima do Chile.
Casablanca está localizada a cerca de 80 km a noroeste de Santiago e a menos de 30 km do Oceano Pacífico, aninhada na Cordilheira da Costa.
A corrente fria de Humboldt traz brisas marinhas constantes e um nevoeiro matinal espesso (la camanchaca). Isso modera a insolação matinal e mantém as temperaturas baixas durante boa parte do dia.
As tardes são ensolaradas e amenas, seguidas por quedas bruscas de temperatura à noite. Esse ciclo prolonga o período de maturação, permitindo que as uvas desenvolvam complexidade aromática com acúmulo gradual de açúcares sem perder a acidez natural.
Predominam solos aluviais e coluviais, argilo-arenosos com presença de granito decomposto, pobres em matéria orgânica e com boa drenagem.
Por não receber águas de degelo da Cordilheira dos Andes, a escassez hídrica é um desafio constante, exigindo irrigação por gotejamento precisa. Além disso, as geadas de primavera são frequentes, exigindo o uso de hélices e aspersores para proteção dos vinhedos.
Principais uvas do Vale de Casablanca
Sauvignon Blanc: Emblema branco da região, com perfil crocante, elétrico, aromas cítricos (lima, toranja), notas herbáceas, pedra britada e salinidade marcante.

Chardonnay: Varia de exemplares minerais e frescos até versões estruturadas com passagem criteriosa por carvalho francês, destacando maçã-verde, pêssego e toques amendoados.
Pinot Noir: A principal tinta de Casablanca, entregando vinhos elegantes de corpo médio, aromas de cereja fresca, morango, notas terrosas e taninos sedosos.
Syrah de Clima Frio: Bem diferente dos exemplares do Vale do Maipo ou Colchagua, aqui apresenta perfil focado em notas florais (violetas), pimenta-preta, azeitona preta e grande frescor.
Outras Variedades: Pequenas parcelas de Pinot Gris, Riesling, Viognier e Merlot também encontram excelentes microclimas no vale.
Principais vinícolas de Casablanca
Morandé: A pioneira histórica que provou o potencial da região ao mundo.
Veramonte: Uma das propriedades mais emblemáticas do vale, focada em práticas 100% orgânicas e biodinâmicas.
Casas del Bosque: Vinícola familiar boutique com vinhedos nas encostas mais frias, referência em Sauvignon Blanc e Syrah.
Matetic Vineyards: Localizada na transição entre Casablanca e San Antonio, ícone da agricultura biodinâmica chilena.
Montes (Linha Outer Limits): Utiliza vinhedos locais para projetos inovadores de clima frio.
Emiliana Organic Vineyards: Gigante da sustentabilidade que mantém parcelas expressivas no vale voltadas a vinhos biodinâmicos.
Kingston Family Vineyards: Propriedade boutique reconhecida por focar quase exclusivamente em tintos frios artesanais (Pinot Noir e Syrah).
Vinhos mais bem conceituados

Pequeñas Producciones Sauvignon Blanc – Casas del Bosque – Um dos brancos mais premiados do Chile; perfil mineral, vibrante e salino.
Matetic EQ Syrah – Matetic Vineyards – Syrah (Biodinâmico) – Ícone de Syrah de clima frio, com notas de pimenta-preta moída e taninos finos.
House of Morandé / Morandé Gran Reserva – Morandé – Pinot Noir, Chardonnay – Referência de consistência e respeito à tipicidade histórica da região.
Alazan Pinot Noir – Kingston Family – Produção limitada com foco em elegância, fruta pura e mineralidade.
Ritual Chardonnay – Veramonte- Fermentação espontânea e textura sedosa com frescor preservado.
Curiosidades da região de Casablanca
A Capital Chilena do Enoturismo
Devido à proximidade com a Rota 68 (estrada que liga Santiago a Valparaíso e Viña del Mar), Casablanca tornou-se o destino de enoturismo mais visitado do Chile, com infraestrutura gastronômica de ponta.
Membro das Great Wine Capitals
Em 2012, a união de Valparaíso e Vale de Casablanca ingressou na rede global Great Wine Capitals, colocando o vale ao lado de regiões consagradas como Bordeaux, Rioja, Mendoza e Napa Valley.
A Revolução do Syrah Costeiro
Até Casablanca apostar no Syrah, o Chile produzia a variedade quase que exclusivamente sob calor intenso. O perfil picante e austero revelado em Casablanca mudou o estilo da uva no país.
A batalha do vento e do gelo
É comum ver grandes hélices instaladas nos vinhedos. Elas operam nas madrugadas frias de primavera para movimentar o ar e impedir que o ar congelante se assente sobre os brotos novos.
Um brinde!
Foto principal: Viña Morandé
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral.
Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin
Leia todas as colunas do Mundo do Vinho
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE
