Como uvas em extinção voltaram a produzir?

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Por Edmilson Palermo Soares

Estamos vendo atualmente muitas uvas, que eram consideradas extintas, voltando a aparecer com vinhos muito interessantes.

Mas como foi possível fazer isso? Bom, elas só voltaram depois que vinhedos “quase mortos” foram recuperados.

Muitas regiões da Europa passaram por várias guerras, necessidades de produção de alimentos, restrições impostas por domínios de islâmicos, hunos e outros povos que não se interessavam pela vinicultura.

As duas guerras mundiais, em regiões que ficaram sob bombardeios constantes e com falta de mão-de-obra (estavam alistados nos exércitos), deixaram muitas áreas antes ricas em vinicultura, abandonadas.

Então, veio o trabalho de recuperar os vinhedos.

Recuperar um vinhedo abandonado é um trabalho de paciência, mas que costuma compensar muito: videiras antigas têm raízes profundas, um sistema radicular forte e, se estiverem saudáveis por baixo daquela confusão de galhos, podem entregar uvas com uma complexidade fantástica.

Antes de tocar nessas videiras, é necessário limpar o entorno. Cortar o mato alto, remover trepadeiras invasoras e limpar as linhas.

No primeiro ano, o foco é quase total em reestruturar a planta e fazê-la sobreviver; no segundo, ela volta a se equilibrar; e no terceiro, a produção se estabiliza.

Posteriormente, a qualidade das uvas tende a ser excelente, beneficiando-se da idade e da profundidade que as raízes antigas já possuíam antes mesmo do abandono.

Não existe um “prazo de validade” exato em número de anos para um vinhedo ser recuperado. Enquanto o tronco e as raízes principais estiverem vivos, a videira pode ser recuperada, mesmo que esteja abandonada há mais de 20 anos.

Na viticultura, quanto mais velha a planta, mais valiosa ela se torna, porque suas raízes profundas conseguem extrair nutrientes e água de camadas do solo que plantas jovens não alcançam, gerando vinhos de altíssima complexidade.

O fator decisivo não é o tempo de abandono, mas o estado sanitário da planta.

Se você andar pelo vinhedo abandonado, raspar os troncos e encontrar seiva e tecido verde na maioria deles, a idade do abandono não importa. Aquelas raízes antigas e profundas são um tesouro. Vale a pena o esforço de limpá-las e reerguê-las.

A videira mais antiga ainda produz uvas

Quando falamos de plantas individuais extremamente antigas que foram salvas do abandono total, o caso mais icônico e documentado do mundo é o da “Stara Trta” (A Velha Videira), localizada na cidade de Maribor, na Eslovênia.

Stara Trta – Foto: Hostel Pekarna

Ela está registrada no Guinness Book como a videira produtiva mais antiga do planeta, com mais de 450 anos de idade.  O que torna a história dela fascinante é que ela sobreviveu a invasões otomanas, bombardeios na Segunda Guerra Mundial, à devastadora praga da filoxera no século XIX e, finalmente, ao abandono quase total em meados do século XX. 

Até a década de 1970, a planta ficava na fachada de uma antiga casa (hoje o museu Old Vine House) à beira do rio Drava. Com a negligência, a videira estava seriamente decadente, sufocada por construções ao redor, severamente mal podada e quase morrendo. 

Em 1981, uma equipe de agrônomos e viticultores especializados assumiu a missão de salvá-la. Eles removeram o concreto que sufocava suas raízes, trataram as feridas crônicas do tronco e fizeram podas de rejuvenescimento cirúrgicas ao longo de anos. 

A videira da variedade Žametovka (uma uva tinta local) respondeu de forma espetacular. Suas raízes profundas (que buscam água diretamente no lençol freático do rio) garantiram sua sobrevivência. 

Hoje, plenamente recuperada, a Stara Trta ainda produz entre 35 kg e 55 kg de uva todo ano, o suficiente para envasar cerca de 100 garrafas exclusivas de 250 ml. O vinho é tão raro que a prefeitura de Maribor o utiliza apenas como presente protocolar para chefes de Estado, papas e celebridades. 

Se falarmos não de uma única planta isolada, mas de vinhedos inteiros recuperados após décadas de abandono, os casos mais emblemáticos costumam vir da Califórnia, envolvendo as variedades Zinfandel e Petite Sirah plantadas por imigrantes no século XIX.

O Old Kraft Vineyard, em St. Helena (Napa Valley), plantado originalmente na década de 1860, passou por longos períodos de total abandono, sendo engolido por arbustos selvagens, ervas daninhas e árvores nativas. 

Old Kraft – Foto: Robert Biale Vineynards

Quando produtores locais decidiram resgatá-lo, o trabalho de remoção da vegetação invasora e a reestruturação das videiras levou 4 anos para que as plantas centenárias recuperassem o vigor e voltassem a entregar frutas de altíssima concentração.

Isso mostra que, na viticultura, a madeira velha tem uma resiliência impressionante. Se a raiz fincou fundo na terra, a videira luta para viver e produzir uvas de qualidade. 

E somos agraciados com vinhos espetaculares.

Um brinde!

Edmilson Palermo Soares

Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral.

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