Quando o fetiche é um problema

TIATELMA (2)

Por Telma Elorza

Recebi um e-mail de uma leitora intrigada. Ela havia lido a coluna sobre fetiches “diferentes” e ficou com dúvidas: “Existem desejos sexuais que são proibidos? E por que algumas fantasias são vistas apenas como preferências pessoais enquanto outras são consideradas crimes?”

Bom, eu não gosto muito de falar destas coisas, porque são assuntos cercados de preconceitos, sensacionalismo e desinformação. Mas, até por isso, com a nossa proposta de trazer informações corretas sobre sexo, achei que deveria expor isso aqui também.

Primeiro de tudo, é importante entender que uma coisa que sempre repito por aqui: a sexualidade humana é extremamente diversa. Estudos da psicologia e da sexologia mostram que fantasias e fetiches sexuais são comuns e fazem parte da vida da maioria das pessoas. O que dá tesão em alguém pode parecer estranho, esquisito ou nojento para a maioria das pessoas. E isso não significa que exista algum problema.

O universo dos fetiches é realmente enorme. Desde que tudo aconteça entre adultos capazes de consentir livremente, a ciência não considera essas preferências uma doença. MAS….

Existe um limite nos fetiches que não pode ser ultrapassado

Há uma distinção importante entre um interesse sexual incomum e um Transtorno Parafílico, que causa danos. Segundo o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), uma condição passa a ser consideração um transtorno quando provoca sofrimento significativo para a própria pessoa ou quando envolve prejuízo, risco, sofrimento ou violação dos direitos de terceiros.

É justamente nesses casos que entram os chamados “fetiches proibidos”, que podem ser classificados como crimes.

A pedofilia talvez seja o exemplo mais conhecido. Crianças não possuem maturidade emocional, psicológica, física ou jurídica para serem envolvidas em atos sexuais. Por isso, qualquer prática ou produção de material (fotos, vídeos, etc) com menores é crime. Toda criança é vítima, quando se trata dessa parafilia.

Outro exemplo é o fetiche por situações sexuais sem consentimento. Algumas pessoas podem fantasiar sobre dominação ou submissão, que pode ocorrer de forma consensual entre adultos, em práticas de BDSM (que tem várias regras). Porém, quando envolve coerção real, violência ou estupro, passa a ser crime.

A zoofilia também aparece frequentemente nas discussões sobre fetiches proibidos. Além das questões legais, especialistas destacam que animais não possuem a capacidade de consentir em uma relação sexual. O mesmo vale para necrofilia, que é a prática sexual com cadáveres; exploração sexual; tráfico humano e divulgação de imagens íntimas sem autorização.

“Ah, tia Telma, só pensar em uma fantasia torna alguém criminoso”? Claro que não.

Os especialistas – principalmente psicólogos e psiquiatras – explicam que pensamentos e fantasias podem surgir sem que a pessoa deseje colocá-los em prática. O que torna alguém criminoso é tentar levar esse fetiche para a realidade.

Quando alguém percebe que possui desejos que envolvem pessoas e animais incapazes de consentir ou que envolvam situações ilegais, deve procurar ajuda profissional. É a atitude mais responsável e importante a ser tomada. Não pode deixar a fantasia crescer até chegar à prática.

Aliás, isso merece destaque. A busca por acompanhamento psicológico não deve ser vista como punição, mas como prevenção. Quanto mais cedo a pessoa reconhece um comportamento que põe em risco outras pessoas, maiores são as chances de desenvolver estratégias para evitar danos.

Hoje, a internet facilita o acesso a conteúdos de todos os tipos. Por isso, se tornou ainda mais importante discutir de forma madura a sexualidade, baseada em evidências e sem falso moralismo. Sexo também deve ser feito com responsabilidade e não se pode minimizar ações que causam sofrimento e violência.

No fim das contas, o importante não é se o fetiche é estranho ou nojento. A pergunta que deve ser feita é: existe consentimento livre e consciente entre todos os envolvidos? Se a resposta for sim, ok. É só mais uma forma da sexualidade diversa. Se for não, entramos no campo da violência e do crime.

E esse é um limite que não deve ser ultrapassado.

Tem dúvidas sobre sexo? Mande sua pergunta para telma@olondrinense.com.br

Existe um limite onde o fetiche passa de "diferentão" para crime: é quando prejudica outras pessoas
Tia Telma versão Inteligência Artificial

Quem é Tia Telma?

Jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.

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