Por Marcelo Minka
Dia D chega aos cinemas carregando uma pergunta que Steven Spielberg conhece melhor do que quase qualquer cineasta vivo: o que acontece quando o extraordinário invade a vida comum? Desde Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T. O Extraterrestre, Spielberg transformou a ficção científica em uma forma de espanto moral. Não se trata apenas de olhar para o céu, e sim de perguntar o que a humanidade faz quando o céu responde.
O filme retoma esse território, agora atravessado por um imaginário mais contemporâneo, ou seja, mais paranoico, político e descrente. A revelação da existência de vida fora da Terra não aparece como maravilhamento puro, mas como abalo institucional. O mundo de Dia D não parece preparado para a verdade, parece treinado para escondê-la, administrá-la, vendê-la ou transformá-la em pânico coletivo. É aí que o filme encontra sua força mais atual, imagens manipuladas, segredos de Estado e descrédito generalizado, o contato alienígena não funciona apenas como fantasia e sim como forte sintoma.
Spielberg, vencedor do Oscar por A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan, dirige a partir de uma história sua, com roteiro de David Koepp, colaborador de longa data em filmes como Jurassic Park e Guerra dos Mundos. Essa parceria importa porque Dia D nasce justamente do choque entre espetáculo e ameaça. O cinema de Spielberg sempre soube dar escala ao assombro, que vem contaminado por uma pergunta amarga: ainda somos capazes de reconhecer uma verdade quando ela aparece diante de nós?

Dia D traz uma dimensão adulta
O elenco reforça essa dimensão adulta do projeto. Emily Blunt, atriz indicada ao Oscar por Oppenheimer, traz ao filme uma presença de contenção e inteligência emocional. Josh O’Connor, conhecido por Rivais e The Crown, carrega a inquietação de quem está sempre deslocado dentro do próprio tempo. Colin Firth, vencedor do Oscar por O Discurso do Rei, dá certa gravidade institucional ao conflito. Eve Hewson, de Bad Sisters, e Colman Domingo, indicado ao Oscar por Rustin, ampliam o campo dramático da narrativa carregada de tensão, crença, medo e manipulação.
O mérito maior do filme está em mostrar que o verdadeiro conflito não está nos alienígenas, está na Terra, nos governos, nas corporações, na mídia, nas pessoas comuns e na incapacidade coletiva de lidar com uma informação capaz de reorganizar a história humana. Spielberg entende que o monstro mais interessante da ficção científica raramente é o visitante, e sim nossa reação ao visitante.
Dia D também dialoga com uma Hollywood que tenta recuperar o sentido do grande evento cinematográfico, tentando recolocar o espetáculo dentro de uma tradição de cinema popular com densidade moral. Spielberg sabe que o público quer imagens grandiosas, mas sabe também que imagem grandiosa sem conflito humano é imagem vazia. Sua mise-en-scène continua interessada no rosto, na hesitação, no olhar que antecede a catástrofe.
Há, no entanto, um risco evidente: Spielberg retorna a um território que ele próprio ajudou a fundar. Isso exige mais do que competência. O filme funciona melhor quando abandona a reverência ao próprio mito e encara o presente com dureza. O mundo de hoje não receberia uma nave como nos anos 1970 ou 1980. Receberia com colapso informacional, disputa narrativa, medo político e oportunismo. Quando Dia D assume essa leitura, cresce poderosamente. Quando se aproxima demais da nostalgia spielberguiana, perde tensão.
Ainda assim, o resultado se impõe como um filme relevante dentro da trajetória do diretor. Dia D não busca apenas recuperar o encantamento perdido da ficção científica, mas também perguntar se esse encantamento ainda é possível. No fundo, Dia D não fala apenas sobre vida fora da Terra, e sim vida na Terra. Fala sobre uma humanidade que se tornou pequena demais para dar conta daquilo que acha que deseja descobrir. Divirta-se.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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