Calor e gritos no Calçadão de Londrina

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Por Ana Paula Barcellos

Londrina pegando fogo. Sol ardido, ar parado, aquele bafo quente que gruda na pele e não solta. Segunda-feira comum, mas o termômetro já castigava desde cedo. Precisei comprar umas coisas que só acho perto do Calçadão, então chamei um carro por aplicativo. O carro me largou ali perto das Lojas Americanas, e segui a pé. Fazia anos que não passava por ali assim, devagar, no meio da multidão suada.

Curtiria o passeio se não fosse o calor infernal. Mas o calor era só o começo. No meio do caminho, ouvi o som. Microfone chiando, voz grossa gritando descontrolada. Um homem berrando sobre inferno, sobre acabar com a palhaçada, com a pouca-vergonha. Gritava como se o Calçadão inteiro precisasse ser salvo naquele minuto. Pra mim, a própria definição de estar com o tinhoso.

Eu não pedi sermão. Não pedi ninguém me dizendo o que é pecado ou o que não é. Se quisesse pregação, ia pra igreja, prum templo. Ali, no Calçadão, não.

Fui ficando irritada. O calor já estava insuportável, agora tinha isso: um patola possesso, caixa de som no volume máximo, em frente às Pernambucanas, como sempre. Um cara passou do meu lado e soltou: “O careca tá brabo hoje!”

Faz tempo que tem gente de uma denominação religiosa gritando no Calçadão. Por que ninguém faz nada? Espaço público não é igreja
Imagens: Freepik

Calçadão é lugar de pregar? Imagina se todas as religiões fizessem o mesmo

Faz tempo que tem gente gritando ali, sempre um puto cuidando dos pecados dos outros.
Quando eu passava por ali todo dia, já tinha homem, já usava microfone, o mesmo discurso. Nada mudou. Fico pensando em quem trabalha ali, naquele trecho do Calçadão. Como aguenta sem pirar?

Por que ninguém faz nada? Por que deixam? A quem interessa ter representante de apenas uma denominação religiosa ocupando o espaço público, gritando pra quem não quer ouvir? Imagina se cada religião mandasse o seu pregador: um católico, um evangélico, um umbandista, um espírita, um muçulmano, todos berrando ao mesmo tempo. O Calçadão virava zona de guerra santa.

Entrei na loja do fundo, peguei o que precisava, saí rápido. Corri pra chamar o Uber, suando mais ainda. Antes de entrar no carro, desejei mentalmente um piriri nervoso pra quem acha que tem direito de atrapalhar a paz do transeunte em plena segunda-feira escaldante, no Calçadão ou em qualquer rua da cidade. Assim seja.

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.

Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab

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