Por Ana Paula Barcellos
Durante quase uma década, se você jogasse meu nome completo no Yahoo ou no Google, o primeiro resultado a surgir na tela era sempre o mesmo: a notícia do meu atropelamento. E o título era justamente esse: “Mulher de 25 anos é atropelada na Higienópolis”. Pois é, eu já fui atropelada. Não por um carro, mas por uma moto, uma Kawasaki Ninja azul, bem ali na Avenida Higienópolis, em 2009. E esse episódio marcou.
Eu estava em horário de trabalho, correndo pra resolver umas pendências, e me preparava pra cruzar a avenida. O dia estava quente, um calor de derreter, e eu não me sentia lá muito bem. A pressão, provavelmente, estava muito baixa. Lembro da moto vindo em minha direção enquanto eu estava no meio da pista. Depois disso, é tudo um borrão: a sensação da moto passando pelas minhas costas, pela perna, e um breu absoluto.
Voltei a mim um tempo depois, já mais perto do meio-fio, pra onde me arrastaram. Tinha um corte na cabeça sangrando muito e uma mulher ao meu lado, com uma voz forte, dizendo: “O Samu já tá chegando, tenta ficar alerta!”. Mais tarde, soube que o rapaz da moto ficou ali, esperando o socorro chegar. Ele disse que o sinal estava aberto, que a avenida parecia livre, que dava tempo de eu atravessar, mas que me assustei. Faz sentido, se eu estava passando mal. Valeu, moço, espero que você tenha seguido a vida sem traumas!
De repente, apareceu um cara – soube depois que era repórter do Programa do Camargo – perguntando meu nome. Atordoada, passei meus dados direitinho. Gente, se eu estivesse um tiquinho mais lúcida, juro que tinha dito “Paola Bracho”, só pra fazer graça. Perdi a piada, uma pena, porque meu acidente virou o assunto do dia no programa. Pelo visto, nada mais interessante tinha acontecido na cidade – além de ser atropelada – , e meu vídeo foi reprisado várias vezes. No trabalho, ganhei o apelido carinhoso de “Camarguete”.
Ligaram pro pessoal do serviço – eu, mesmo grogue, tive a presença de espírito de passar o telefone e um nome de contato pra avisarem do ocorrido. O Samu chegou logo depois. O paramédico, enquanto me atendia, repetia pro repórter: “Pelo tanto de sangue, parece feio, parece sim”. Imobilizaram minha perna, cortaram minha calça jeans (novinha, que eu ainda nem tinha terminado de pagar) e me perguntaram: “Você não tá sentindo dor?”. Nenhuma, moço. Era pura adrenalina, claro. No hospital, descobri que tinha fraturado a tíbia e a fíbula. E, sim, conheci uma das piores dores da minha vida. Ali eu chorei.
O plano inicial era me mandar pra casa e esperar três dias pela cirurgia. Minha mãe, argentina brava que não leva desaforo – e muito menos a filha doente pra casa – , virou a Rochelle cordobesa, rodou a baiana hermana e disse que dali eu não saía sem ser operada. E assim foi. Me arrumaram um quarto, fiquei internada, e três dias depois veio a cirurgia. Na parte de trás da cabeça, levei vários pontos que formaram uma cicatriz em forma de ípsilon, uma lembrança eterna da pancada.
Mas aí veio o “porém”. O cirurgião, sabe-se lá por quê, colocou uma haste maior do que o necessário pro meu tamanho – eu, com meu 1,59, ganhei uma haste pra alguém de 1,64. Resultado? Em um ano, eu teria que voltar pra retirar a haste, senão meu joelho ia sofrer. Enquanto isso, minha irmã lidava com o caos lá fora: os meios de comunicação, acredite, noticiaram que meu estado era grave. Teve gente achando que eu estava nas últimas! Ela precisou correr atrás pra retificar as notícias e tranquilizar todo mundo.
Atropelada após quadro depressivo
De volta pra casa, foram 15 dias de cama, mais 15 de cadeira de rodas. Depois, encarei a bengala por alguns meses. Aquilo me angustiava profundamente. Eu tinha acabado de superar um quadro depressivo severo, estava começando a curtir a vida de novo, e, de repente, me sentia paralisada e atropelada. Tinha uma viagem marcada, e, quando a data foi se aproximando, eu ainda estava de bengala. Implorei pro médico, o Dr. Pedrollo, me ajudar a abandonar aquele troço. Nunca vou esquecer o olhar fanfarrão dele, com aquele sorriso irônico, segurando a bengala e dizendo: “Então anda!”. Minha perna? Nem se mexeu. Meu corpo achava que ela nem existia mais. Foi o momento de aceitar que ainda tinha um caminho de fisioterapia e paciência pela frente.

E, no fim, foi bom assim. A vida me deu um tempo extra pra pensar. Naquele período, percebi que precisava mudar muita coisa, incluindo um relacionamento falido que não fazia sentido. A bengala, de certa forma, foi uma parceira nessa jornada. Quando finalmente me livrei dela, sabia exatamente o que fazer. Terminei o namoro, chamei minha irmã e disse: “Faz as malas, rápido!”. Fomos direto pra rodoviária. “Moça, qual o próximo ônibus?”. Tinha um saindo naquele exato momento, rumo à praia. “Corre que vocês pegam ele!”. Correr, eu não corri, mas deu tempo. Terminei minha fisioterapia no mar de Santa Catarina, e aquele foi o melhor recomeço que eu poderia ter.
Um ano e dois meses depois, precisei tirar a haste. Estava morando no ABC Paulista, subia ladeira mancando igual o Dr. House e corria risco de tendinite no joelho. Uma pena, porque eu tinha até apelidado a haste de Quitéria – ela sempre me avisava quando ia chover, era batata! Do acidente, sobraram duas cicatrizes quase invisíveis, uma história tragicômica e aquela notícia que, por quase dez anos, o Yahoo e o Google não me deixaram esquecer.
Decidi contar essa história porque, entre um café e uma andança, sempre encontro gente. Gente comum, como eu e você. E quando a gente senta pra conversar um cadinho, percebe que todo mundo, seja quem for, tem uma boa história pra contar. Algumas delas vão aparecer por aqui, nessas crônicas. Essa é uma das minhas. Qual é a sua?
Foto principal: Freepik
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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