Por Ana Paula Barcellos
Tenho visitado uma amiga internada no Hospital Universitário de Londrina, o HU, onde às vezes fico como acompanhante. O HU que é um paradoxo: entrada reformada, novinha, limpa, modernizada, mas que esconde um labirinto de problemas que parecem saídos de um filme de terror.
Você chega ao HU e se impressiona. A entrada principal é um cartão-postal: moderna, tecnológica, com tudo brilhando. Mas é só passar a catraca, seguir o corredor e virar para as linhas coloridas no chão – azul, amarela – que a ilusão desmorona. A entrada do Pronto-Socorro (PS) é, pasmem, uma garagem. Isso mesmo, uma garagem com pegada industrial, paredes sujas, tapumes improvisados e linhas gastas que guiam por um labirinto mal conservado.



À noite, a sensação é de estar numa produção de terror B. Cada passo ecoa como se você estivesse indo para a “sala proibida”. Abro a porta do PS e quase ouço uma voz gritando: “Não entra aí, sua burra!” – como eu mesma dizia assistindo a mocinhas em filmes de terror. Mas entro, porque minha amiga está lá.
No quarto, sete leitos espremidos dividem um espaço claustrofóbico. Minha amiga está no canto, junto à parede. Não há cadeira para acompanhantes. Puxo um degrau debaixo da cama, mas levanto a cada instante: uma acompanhante precisa ir ao banheiro, uma enfermeira vem medir pressão. Se fosse passar a noite, não teria onde ficar. O desconforto físico é só o começo. A alimentação é outro drama. Minha amiga, com inapetência e dores intensas, mal consegue comer. As marmitas do hospital? Salgadas demais. “Como a gente come isso?”, reclamam as pacientes. “E as hipertensas, como ficam?” No primeiro dia, corri à cantina do CCB por um pão de queijo e um sanduíche. Mas e as internadas? Elas não têm essa opção.


Conversei com uma companheira de quarto. Ela me contou que a nutricionista orienta anotar restrições alimentares, mas algumas copeiras ignoram. Resultado: pacientes com diabetes recebem alimentos proibidos, a glicose dispara, o quadro piora. Algumas passam fome. Talvez o problema não seja só as copeiras, mas a falta de alimentos adequados.
Assim como o enfermeiro meio bruto, que não tem paciência para explicar com tato que não dá para pegar a veia no braço menos dolorido, talvez não seja só má vontade. Minha amiga, que tem alta resistência à dor, se contorce e chora. Se ela chora, é porque dói muito. Mas o que fazer? O cansaço dos profissionais, os turnos longos e a superlotação explicam, mas não justificam.
HU lotado
O HU está lotado. E, segundo me contaram, parte disso vem de um problema maior: a baixa vacinação. Nunca se viu tanto caso de pneumonia e bronquiolite, especialmente em crianças. A imunidade de rebanho, que dependia de altas taxas de vacinação, ruiu. Pais e mães hesitam em vacinar os filhos e o resultado é desesperador. Crianças lotam os leitos, famílias sofrem, e o sistema colapsa.

O HU de Londrina é um reflexo de um sistema de saúde sobrecarregado, onde uma fachada bonita mascara uma estrutura precária, um labirinto de problemas e uma equipe exausta. Precisamos de mais recursos, melhor gestão e, acima de tudo, consciência coletiva. Vacinar é salvar vidas. Cuidar do SUS é cuidar de nós mesmos. A situação é ruim, independente de onde e como a gente veja. Londrina, vamos cobrar, mas também fazer nossa parte?
Foto principal: SETI/PR

Ana Paula Barcellos
É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram yopaulab
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