Por Wilson Moreira
O documentário “Apocalipse nos trópicos”, dirigido por Petra Costa, investiga a influência do fundamentalismo evangélico na política brasileira contemporânea. O filme aborda como o movimento evangélico se tornou um motor de radicalização política e como figuras políticas foram influenciados por essa religiosidade e apossaram-se da fé evangélica para seus fins de poder. O documentário destaca o crescimento do número de evangélicos no Brasil e como essa religião foi mobilizada como uma ferramenta de dominação.
O documentário, contudo, vai além da conjuntura recente. Ele oferece um olhar histórico ao evidenciar que essa aproximação entre religião e política não é nova no Brasil. Já durante a ditadura militar (1964–1985), os Estados Unidos operavam, nos bastidores, um plano para enfraquecer a Teologia da Libertação — movimento de matriz católica e evangélica com viés progressista — e expandir uma religiosidade alinhada ao neoliberalismo e ao anticomunismo.
O documentário ainda retrata com precisão os desdobramentos das eleições de 2018 e 2022, bem como as investidas antidemocráticas para manter Jair Bolsonaro no poder. Os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, por exemplo, são apresentados como uma evidência de que há um setor do cristianismo brasileiro disposto a entrar em guerra em nome de uma ideologia política.

Documentário foca as similitudes
Importante ressaltar que não há a negação da diversidade evangélica no documentário, outrossim o que é enfocado são as similitudes, ou seja, o que é que os une. E é sobretudo a face ideológica conservadora ao extremo que tem sobressaído nas igrejas evangélicas. As correntes de crença evangélicas têm sido usadas para suportar e disseminar ideais conservadores e projetá-los no campo público-político, ultrapassando assim o campo puramente religiosa e da fé. Boa parte dos líderes evangélicos foram cooptados pela política e políticos profissionais e tornaram-se multiplicadores de mentiras dentro das igrejas, como foi o caso do “kit gay” nas eleições de 2018, principalmente.
Considerável parcela dos evangélicos tem sido usada como instrumento político para a defesa de ideais antidemocráticos e contra a luta de direitos legítimos de determinados grupos sociais, como a população LGBTI+ por exemplo, com o interesse de impor os princípios e valores evangélicos a toda a sociedade, colocando em xeque a laicidade do estado. Aqui há de se lembrar que a laicidade do estado refere-se à separação entre o estado e as instituições religiosas, garantindo a neutralidade do estado em questões religiosas e a liberdade de crença para todos os cidadãos. O estado não é ateu, mas sim deve garantir que o cidadão exerça qualquer crença que assim o queira.
Nesse sentido, o documentário levanta um alerta: a ideia de “guerra santa” não está distante da realidade brasileira, o que é extremamente preocupante em um país que se define, constitucionalmente, como laico e plural. Que os verdadeiros seguidores de Cristo nas igrejas evangélicas possam abrir os olhos e percebam os caminhos incertos que estão tomando ao associarem-se a ideologias próximas ao fascismo.
(*) Wilson Moreira é policial penal, cientista social, poeta e vice-presidente do diretório municipal do PCdoB em Londrina.
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