Por Edmilson Palermo Soares
Continuando nossa série sobre as regiões vinícolas de Portugal, vamos falar hoje sobre a Península de Setúbal, situada a sul de Lisboa, e uma das mais emblemáticas de Portugal. Ela é conhecida tanto pela sua longa tradição na produção de vinho quanto pela diversidade e excelência dos seus vinhos. O terroir desta região combina a influência atlântica, solos diversos e uma herança cultural profunda, tornando-a uma região essencial para apreciadores de vinhos.
A produção de vinho na Península de Setúbal remonta à época da ocupação romana, sendo que vestígios históricos atestam a existência de vinhas e lagares antigos. Ao longo dos séculos, a viticultura ganhou importância não só pela qualidade dos vinhos, mas também pelo papel relevante na economia local e na exportação para outros países europeus, principalmente para a Inglaterra e Holanda, desde o século XVI.
Durante a Idade Média, as ordens religiosas e os mosteiros desempenharam um papel essencial no desenvolvimento da vinha, aperfeiçoando métodos de cultivo e técnicas de vinificação. No século XIX, a região sofreu, como tantas outras, com a praga da filoxera, que devastou grande parte das vinhas europeias, mas soube reinventar-se, introduzindo novas castas e consolidando a sua identidade vinícola.
A Península de Setúbal abrange os concelhos (em Portugal, os concelhos equivalem a municípios ou cidades) de Setúbal, Palmela, Sesimbra, Montijo, Alcochete, Barreiro, Moita, Seixal, Almada e parte de outros municípios limítrofes. A proximidade ao Oceano Atlântico e ao estuário do Tejo confere à região um clima temperado, com verões quentes e secos e invernos amenos, fatores que influenciam decisivamente a maturação e o perfil aromático das uvas.
Os solos são muito variados, indo desde areias leves a argilas pesadas, passando por afloramentos calcários, o que permite uma grande diversidade de castas e estilos de vinho. As encostas da Serra da Arrábida, com orientação sul e exposição solar prolongada, são particularmente favoráveis à produção de vinhos de elevada qualidade.
A Península de Setúbal possui duas denominações de origem controlada (DOC): Palmela e Setúbal, além da indicação geográfica protegida (IGP) Península de Setúbal. Cada uma destas denominações representa diferentes tradições, castas e estilos vínicos.
DOC Setúbal: Famosa pelo seu vinho generoso, o Moscatel de Setúbal, considerado um dos melhores vinhos licorosos do mundo. Esta DOC exige que o vinho seja produzido com pelo menos 85% da casta Moscatel de Setúbal, podendo ser complementado por Moscatel Roxo e outras castas autorizadas.
DOC Palmela: Centra-se essencialmente nos vinhos tintos, onde a casta Castelão domina. Para ostentar a designação DOC Palmela, os vinhos devem conter pelo menos 66% de Castelão, sendo o restante preenchido por outras castas, como Aragonês, Touriga Nacional e Trincadeira.

IGP Península de Setúbal: Permite uma maior liberdade na escolha das castas e técnicas de vinificação, abarcando uma vasta gama de vinhos tintos, brancos e rosés, muitos deles inovadores e modernos, mas sempre com respeito pela tradição.
A riqueza da Península de Setúbal reside, em grande parte, na diversidade de castas cultivadas. Entre as castas tintas, destaca-se a Castelão, também conhecida localmente como Periquita. Esta variedade adapta-se particularmente bem aos solos arenosos da região e dá origem a vinhos de cor intensa, taninos firmes e excelente capacidade de envelhecimento.
Outras castas tintas importantes incluem:
- Touriga Nacional
- Aragonês (Tempranillo)
- Trincadeira
- Alicante Bouschet
- Syrah
- Cabernet Sauvignon
Nas castas brancas, o destaque vai para:
- Moscatel de Setúbal
- Moscatel Roxo
- Arinto
- Fernão Pires
- Chardonnay
- Antão Vaz
Estas castas, tanto autóctones quanto internacionais, permitem aos produtores criarem vinhos com grande diversidade de perfis, desde brancos aromáticos e frescos até tintos estruturados e complexos.
Moscatel de Setúbal

O Moscatel de Setúbal, vinho generoso e profundamente aromático, é o símbolo maior da região.
Produzido a partir da casta Moscatel de Setúbal, distingue-se pelo seu sabor intenso a frutos secos, mel, flor de laranjeira, e notas cítricas. O processo de maceração prolongada com as borras durante vários meses confere-lhe cor âmbar, textura aveludada e uma complexidade marcante.
Este vinho pode ser consumido jovem ou após longos períodos de envelhecimento em madeira, desenvolvendo aromas de frutos secos, especiarias e caramelo. É perfeito como aperitivo, acompanhamento de sobremesas ou simplesmente para fechar uma refeição em grande estilo.
Mas a Península de Setúbal não se limita ao Moscatel. Os vinhos tintos, sobretudo aqueles dominados pela Castelão, são encorpados, de cor vigorosa, com notas de frutos vermelhos, especiarias e, em alguns casos, toques balsâmicos e de tabaco. São vinhos com excelente potencial de envelhecimento, apreciados tanto em Portugal como internacionalmente.
Os vinhos brancos, provenientes das castas Moscatel, Arinto e Fernão Pires, são frescos, aromáticos, com acidez bem-marcada e notas florais e cítricas.
Já os roses têm ganhado expressão, apresentando-se elegantes e muito versáteis à mesa.
A região conta com várias casas produtoras de renome, algumas centenárias, responsáveis por manter a tradição e, ao mesmo tempo, inovar na abordagem à vinificação. Entre as mais conhecidas destacam-se:
- José Maria da Fonseca: Fundada em 1834, é uma das mais antigas e prestigiadas casas vinícolas de Portugal, pioneira na produção de Moscatel de Setúbal e detentora de rótulos icónicos como o Periquita.
- Bacalhôa Vinhos de Portugal: Com uma aposta na inovação, alia tradição a métodos modernos, produzindo vinhos de elevada qualidade reconhecidos internacionalmente.
- Adega de Pegões: Cooperativa que agrega dezenas de viticultores, produzindo vinhos de excelente relação qualidade/preço.
- Casa Ermelinda Freitas: Com forte presença nacional e internacional, destaca-se tanto nos vinhos tintos como no Moscatel.
A Península de Setúbal oferece experiências de enoturismo inesquecíveis, com roteiros que incluem provas em adegas históricas, visitas a vinhas, passeios pelas encostas da Arrábida e harmonizações gastronómicas que valorizam os produtos regionais, como o queijo de Azeitão e o pão de Alfarim.
Além da vertente vinícola, a região é rica em patrimônio natural e arquitetônico, com destaque para o Parque Natural da Arrábida, as praias de areia fina, os castelos de Palmela e Sesimbra e o centro histórico de Setúbal.
Como todas as regiões vitivinícolas, a Península de Setúbal enfrenta desafios inerentes às alterações climáticas e à necessidade de inovar sem perder a identidade. Os produtores estão atentos à sustentabilidade, adotando práticas de agricultura biológica e desenvolvendo projetos de investigação para preservar as castas autóctones.
O futuro da região passa pela aposta na qualidade, na diferenciação e na internacionalização dos vinhos, assegurando que a Península de Setúbal continue entre os grandes nomes do vinho mundial, honrando a herança secular e abraçando a inovação.
Um brinde!
Foto principal: José Maria da Fonseca/Divulgação
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral. Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin
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