Por quê as roupas de antigamente parecem vestir melhor?

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Por Ana Paula Barcellos

Quem nunca abriu o armário da avó, experimentou uma peça vintage ou garimpou um achado em brechó e pensou: “Por que isso veste tão melhor que minhas roupas novas?” Pois não é apenas impressão ou saudosismo. As roupas de antigamente tinham algo especial – uma modelagem pensada para abraçar corpos reais, não para moldá-los a um ideal inatingível, diferente da moda atual, que se tornou excludente.

Entre as décadas de 1930 e 1960, a confecção de roupas seguia a “lei áurea” para modelagem, baseada em proporções matemáticas e estudos anatômicos. Alfaiates e estilistas criavam peças que se ajustavam a uma ampla gama de corpos, valorizando a diversidade natural. Pense no icônico New Look de Christian Dior (1947), com cinturas marcadas e saias amplas que destacavam curvas, mas também acomodavam diferentes biotipos graças a técnicas como pences, recortes estratégicos e margens de costura generosas, que permitiam ajustes sob medida.

Um estudo da Universidade de Cornell, analisando padrões de costura dos anos 1950, revelou que as tabelas de medidas eram mais inclusivas, contemplando torsos mais longos, quadris mais largos e até assimetrias corporais. Até a produção industrial, que ganhou força no pós-guerra, respeitava essas proporções. Durante a Segunda Guerra, por exemplo, o programa britânico “Make Do and Mend” incentivava reformas e ajustes, reforçando a ideia de que roupas deviam durar e se adaptar ao corpo. Resultado? Peças que não apenas duravam anos, mas que vestiam bem.

A modelagem da década de 70 ainda carregava a vibe da inclusão das eras anteriores, mas já mostrava sinais de transição para algo mais padronizado, ainda assim flexível e adaptável, influenciada pelo movimento hippie e pela era disco. As silhuetas variavam: de vestidos soltos e fluidos (como os prairie dresses com comprimentos midi e babados) a peças justas e glamourosas para a noite, como vestidos com lantejoulas que abraçavam curvas.

O icônico wrap dress de Diane von Furstenberg, por exemplo, era projetado para ser versátil, ajustando-se a diferentes corpos com facilidade – pense em modelagens com margens de costura generosas e tecidos elásticos emergentes. Os padrões de costura caseira (home sewing) eram populares, com revistas oferecendo moldes multi-tamanhos que consideravam variações reais de corpo, como quadris mais largos ou torsos variados. O ideal corporal era jovem e magro, continuando a tendência dos anos 60 com Twiggy, mas ainda havia espaço para curvas. Ou seja, não era tão rígida quanto hoje, mas já priorizava magreza (inclusive houve um boom nos casos de anorexia nos anos 70), com menos representação para corpos plus size.

Nos anos 80, a modelagem ganhou exageros – ombros largos com ombreiras, ternos de power dressing e vestidos body-con (justos ao corpo) feitos com Lycra, que moldavam a silhueta atlética. Designers como Donna Karan e Azzedine Alaïa criavam peças que “moldavam o corpo”, enfatizando fitness e tonicidade, em vez de curvas suaves. Os padrões de costura incorporavam cores vibrantes e padrões ousados, mas a produção em massa começava a padronizar tamanhos para eficiência.

O ideal corporal era forte e magro: supermodels como Cindy Crawford representavam uma mulher “poderosa”, mas ainda esguia e alta. Inclusividade? Começava a diminuir – o foco em corpos tonificados excluía quem não seguia dietas rigorosas ou malhação, embora subculturas como goth e hip-hop trouxessem diversidade de rua. Fato interessante: A ascensão das mulheres no mercado de trabalho influenciou modelagens que projetavam autoridade, mas isso era para um biotipo específico.

Nos anos 1990, a modelagem virou mais casual e oversized no início (grunge com camisas flanela largas e jeans baggy), mas evoluiu para silhuetas femininas justas, como slip dresses e tops cropped. Designers como Marc Jacobs e Helmut Lang adaptavam padrões para looks utilitários e minimalistas. No entanto, o ideal corporal ficou extremo: o “heroin chic” de Kate Moss promovia magreza waif-like (frágil e delicada), priorizando corpos magros e andróginos.

Os moldes de costura ainda incluíam opções multi-tamanhos em patterns caseiros, mas a indústria fast fashion (com marcas como Zara expandindo globalmente) padronizava tamanhos para produção barata, ignorando diversidade: a ênfase em magreza extrema marginalizava curvas, com modelagens que não se adaptavam bem a corpos reais – pense em jeans cintura baixa que exigiam abdômen chapado. Essa década viu o pico de mortalidade por anorexia, contrastando com a epidemia global de obesidade, mostrando como a moda se desconectava da realidade.

Lisa Bonet, com look anos 80. Foto: Reprodução da internet

Ajustar o corpo às roupas tem lógica?

Agora, avance para 2025. A modelagem atual, especialmente na fast fashion, é projetada para um corpo que representa uma minoria: cintura fina, pernas longas, proporções simétricas. Um relatório de 2023 da Fashion Revolution mostrou que 68% das consumidoras globais sentem que as roupas não se ajustam bem, sobretudo em tamanhos acima do 42. A culpa recai sobre grades de tamanhos restritas e modelagens que ignoram a diversidade. Um estudo de 2024 da Vogue Business revelou que apenas 15% das coleções de grandes varejistas oferecem tamanhos acima do 46 com modelagem funcional, não apenas “esticada” pra caber.

A tecnologia, que poderia democratizar o caimento, é usada para cortar custos, não para incluir. Softwares de design 3D criam padrões otimizados para produção em massa, baseados em manequins digitais com medidas “perfeitas”. Isso resulta em peças que exigem que o corpo se adapte à roupa, não o contrário. Quem nunca lutou com um jeans que aperta na cintura, mas sobra no quadril? Ou uma blusa que parece perfeita na frente, mas puxa nas costas? Essa frustração reflete uma indústria que prioriza lucro sobre o bem vestir.

As roupas de antigamente vestiam, sim, melhor porque eram feitas para pessoas, não para manequins. A modelagem respeitava a diversidade dos corpos. Como reconquistar isso? A nós, consumidores, resta buscar novas marcas e redescobrir o hábito – e de repente o prazer – de ajustar uma peça com a costureira do bairro. A moda é um espelho da sociedade, de alguma forma também precisamos nos movimentar. E você, já sentiu diferença entre o passado e o presente na hora de se vestir?

Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate. Me siga no Instagram @experienciasdecabide @yopaulab

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