As carroças se vão, mas o barulho fica na cabeça da cidade

freepik__the-style-is-candid-image-photography-with-natural__84754

Por Ana Paula Barcellos

A Câmara Municipal de Londrina aprovou, no último dia 10 de julho, o Projeto de Lei nº 203/2025, uma iniciativa que marca o fim gradual de carroça e do uso de animais de tração para transporte na cidade. Mais do que proibir, o projeto pensa nos carroceiros, oferecendo um caminho digno para a transição: auxílio financeiro de até R$ 10 mil para iniciar nova atividade, indenização de R$ 1 mil pela entrega da carroça, renda de transição de um salário mínimo por seis meses e cursos de qualificação profissional. Os animais, por sua vez, serão encaminhados a lares temporários, ONGs ou santuários, com adoção responsável. Um investimento de R$ 522 mil do Fundo Municipal do Meio Ambiente para equilibrar o bem-estar animal e a inclusão social. É, sem dúvida, uma medida bem pensada, que olha para bichos e pessoas com empatia.

Mas, essa, como tantas, é uma vitória com sabor de cabo de guarda-chuva. Como quase sempre, há um descompasso. Enquanto os vereadores deram um passo à frente (coisa rara), parte da população deu dois passos atrás. Nas redes sociais, sobretudo no Facebook, me deparei com comentários (muitos) que me fizeram suspirar tão fundo que minha irmã chegou a perguntar se estava tudo bem. “Faz o carroceiro trocar de lugar com o cavalo”, “absurdo ter que arcar com as despesas dessa gente”, diziam.

Outros eram ainda piores. Fiquei incomodada, mas, infelizmente, não surpresa. O ódio gratuito, destilado com prazer, parece ter se tornado esporte municipal. E o alvo? Gente como a gente. Carroceiros, que muitas vezes nunca tiveram outra opção de trabalho. Que são homens e mulheres, como nós, mas que carregam o peso da vida nas costas, como os cavalos que puxam suas carroças. E agora, com o amparo do poder público, têm a chance de mudar essa vida. Por que odiar isso?

O barulho da carroça não vai mais estar nas ruas de Londrina. Mas parece que o londrinense só tem barulho de carroça na cabeça
Fotos: Imagens geradas por IA/Freepik

Barulho de caroça na cabeça

A falácia de “eu que vou pagar isso” é outro sintoma dessa raiva sem sentido. Ser contribuinte não faz de ninguém patrão indireto, dono do destino alheio. Pagar impostos é sustentar uma cidade, um coletivo, não bancar indivíduos. É um pacto social, não um contrato de mando, não cria relação de poder com ninguém. Quem se revolta com o auxílio aos carroceiros parece esquecer que a miséria de um é a miséria de todos. Ignora que dar condições para alguém sair da precariedade é investir na própria comunidade.

Confesso que, diante de tanto rosnado raivoso, dá vontade de me alhear. De fechar as redes, silenciar as notícias, ficar apenas com o contato humano com quem ainda enxerga o outro como igual. Inclusive, amo muito os bichos, mas desconfio de quem coloca bicho acima de gente como a gente. Proteger os animais é importante e urgente, mas não pode ser pretexto para desumanizar quem já vive à margem. A aprovação do PL 203/2025 é um marco, um exemplo de política pública que concilia ética, sensibilidade e pragmatismo. Mas as maiores e mais necessárias mudanças não dependem apenas de leis para acontecer, precisam desenvolver mentalidade coletiva e boa vontade individual também… ou vão-se as carroças, mas fica o barulho. E como é alto o barulho de carroça na cabeça!

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.

Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab

Leia mais colunas Crônicas de Uma Cidade

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente a opinião do O LONDRINE̅NSE

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse