Quais marcas realmente se preocupam com sustentabilidade?

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Por Ana Paula Barcellos

Nas minhas pesquisas sobre moda e sustentabilidade, tenho me deparado cada vez mais com dados bastante surpreendentes, e que mostram uma diferença gritante entre as políticas de sustentabilidade de marcas acessíveis, de lojas de departamentos como C&A, Riachuelo e Lojas Renner e as práticas questionáveis de algumas grifes de luxo. E esse é um tema que tem ganho bastante destaque, inclusive nas redes sociais.

E é sim verdade que essas varejistas brasileiras têm políticas de sustentabilidade e moda circular bem mais avançadas do que as marcas de luxo dos shoppings chiques. Acredite! C&A, Riachuelo e Renner estão investindo pesado em economia circular. A Lojas Renner, por exemplo, lidera com o EcoEstilo, desde 2011, recolhendo mais de 10 toneladas de roupas para reciclagem ou doação, e em 2021 inaugurou lojas circulares no Rio, reduzindo em 56% o consumo de água. A C&A, com o Movimento ReCiclo (desde 2012), já arrecadou 165 mil peças, e em 2021 lançou o “jeans circular” com fibras recicladas. Já a Riachuelo, com o “Moda que Transforma” (2020), dá nova vida a 86% das peças coletadas e usa tecnologia para cortar em até 70% o uso de água na produção de jeans. São iniciativas que mostram compromisso com a sustentabilidade, muitas vezes alinhado a preços acessíveis.

As marcas acessíveis como C&A, Riachuelo e Renner têm mais políticas concretas de sustentabilidade que grifes de luxo
Fotos: Freepik

Mas por que isso importa? Pagar caro por uma bolsa de luxo não garante condições éticas de trabalho, boas relações com fornecedores ou preocupação com a circularidade. Muitas vezes, o alto custo reflete mais o branding do que a responsabilidade. E aqui entra um ponto crítico: investigações recentes apontam que algumas marcas de luxo se beneficiam da exploração na Amazônia. Relatórios de ONGs como a Earthsight revelam que grifes como Chanel, Gucci, Louis Vuitton e Coach estão ligadas ao uso de couro de gado criado em áreas desmatadas ilegalmente no Pará, incluindo terras indígenas. Esse couro, transformado em bolsas e sapatos na Itália, alimenta um mercado de bilhões enquanto deixa um rastro de destruição ambiental e social.

Marcas de luxo se escondem

Enquanto isso, as marcas de luxo muitas vezes se escondem atrás de campanhas verdes, mas faltam dados transparentes sobre suas cadeias. O Índice de Transparência da Moda Brasil, por exemplo, mostra que poucas divulgam listas de fornecedores ou metas climáticas baseadas em ciência – um contraste com as metas públicas de Renner e C&A até 2030. A Renner planeja 100% de matérias-primas sustentáveis, enquanto a C&A foca em renovar recursos naturais. Já as grifes de luxo, como Balenciaga e Fendi, aparecem em denúncias por ignorar a origem de seus materiais, priorizando lucro sobre ética.

O consumidor tem influência nessa equação. Estudos como o da ABVTEX indicam que 76% dos brasileiros pagariam mais por marcas comprometidas com causas socioambientais, mas o desafio é equilibrar preço e impacto. Marcas como Renner e C&A democratizam a moda sustentável, enquanto o luxo muitas vezes explora a exclusividade para mascarar práticas insustentáveis. A moda circular – reusing, recycling, reduzindo resíduos – é o futuro, e as varejistas brasileiras estão na vanguarda.

Female hands hold a label from white knitted clothing, on which it says 100 percent recycle fabric and a recycling sign. Environment Care, Reuse, Renewable for Sustainable Lifestyle.

Ok, não é perfeito. Essas marcas populares ainda abusam de tecidos poluentes e é necessário avaliar também suas políticas de trabalho, remuneração de funcionários, pagamento de impostos, políticas sociais etc. É preciso sempre olhar o todo. Ainda assim, elas se mostram um passo a frente em vários quesitos.

Então, na hora de escolher o próximo look, pode ser legal levar isso em conta e dar uma olhadinha no que elas oferecem. Eu, pelo menos, tenho conseguido encontrar coisas de melhor qualidade por preços ok (coisa que andava difícil e me afastando dessas lojas na hora de comprar peças novas). E, atualmente, o Repassa (também da Renner) é o brechó que considero mais vantajoso para garimpar, inclusive algumas peças de grife. A gente vai tentando, pelo menos, encontrar caminhos mais conscientes.

Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate.

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