Eu sou mulher!

woman

Por Ângela Diana

Eu sou mulher! E artista! E, claro, já fui vítima de preconceito, já fui assediada, já fui chamada de “louca” e de “agressiva”.

Como?

Há alguns anos, fui procurar arruelas para comprar. Estava fazendo uma grande instalação para o EMATER, na Sociedade Rural e, quando entrei na loja, esqueci totalmente o nome da peça. Descaradamente um vendedor olhou para o outro, e riu da minha cara, não sem antes me olhar de cima abaixo.

Sai da loja de ferragem sem as arruelas e “P” da cara! Desci até a FEPAL, onde um vendedor antigo da empresa me atendeu me tratando com gentileza e respeito. Resultado? Sai de lá com várias ferramentas, arruelas e mais um pouco! 

A loja de ferragem em que o cara riu da minha cara fechou! Bem feito! “EU SOU MULHER E ADORO FERRAMENTAS”! Aliás, me divirto mais comprando ferramentas elétricas do que roupa ou maquiagem em shoppings!

Agressiva!? “Culpada” também! Em uma reunião de artistas no “século” passado, um colega, que não vou citar o nome, mas quem estava lá vai lembrar, comentou com a maior cara de pau, para todos os artistas da reunião, que não era difícil colocar um projeto dentro da lei e que os “artistas de Londrina tinham que parar com o paternalismo em relação a Secretaria de Cultura”! Só que ele fazia parte do conselho consultivo de Cultura e estava apresentando projeto para lei de incentivos! E era proibido um conselheiro participar com projetos (hoje não sei mais quais as regras)!

Fiquei indignada e coloquei ele na parede (claro que não adiantou nada e nenhum colega abriu a boca!) Fui firme, mas educada! 

Resultado? No final da reunião, ele me perguntou se “eu sempre fui AGRESSIVA assim”? Legal né? O cara estava “passando a mão na nossa cara” e a errada e “agressiva” era eu!

Foto: Freepik

Cantadas, assédios? Sim! Com certeza!

Aconteceu em duas exposições minhas, também não vou falar nomes, basta saber que os dois assédios foram em individuais minhas! Em uma, o colega foi me cumprimentar e tentou me beijar na boca (mulher sempre se sente culpada achando que em algum momento “demos mole”. Mas, como dizem os americanos, “Bull Shit”! Na maioria dos casos, são os homens que SE acham e que não suportam ver uma mulher que prefere estar sozinha, cuidando da carreira!)

Em uma outra individual, outro colega chegou para me “cumprimentar”, segurou na minha mão, apertou, e deu aquele olhar “lânguido” de “macho latino americano que se acha” e me falou: “Ainda vamos nos conhecer muito”! Graças a Deus, nunca aconteceu e o cara sumiu de Londrina…

Preconceito entre as próprias mulheres? Aconteceu também! Uma moça que trabalhava numa loja de suco, que ficava em frente a meu antigo atelier, me falou uma vez: ” Você é tão bonita, porque fica enfiada naquele lugar o dia todo?” No caso, o “lugar ” era meu trabalho! Aulas de manhã , a tarde e a noite! Minha carreira, meu TRABALHO! Até hoje penso que a ideia dela de “mulher bonita” é ficar na esquina virando bolsinha ou arrumando marido rico, que, para mim, a palavra que as definem é a mesma! 

Não tenho nada contra que quer ser prostituta ou quem acha que ser mulher é ter marido rico para bancar. Faça da sua vida o que quiser, mas não confundam mulheres que não acreditam que isso seja para todas!

Mulher chamada de louca? Quem nunca?

Chamada de “LOUCA”? Lógico! Até hoje não conheço uma mulher e artista que não tenta sido depreciada por companheiros e família! 

Fora ser chamada, de forma depreciativa (lógico!) de “sapatão, de “macha”, etc, por usar calças compridas, saber usar um martelo, cortar o cabelo curto… Detalhes! Se eu fosse homossexual, não teria problema NENHUM! Mas a história é que “mulher tem que ser feminina”! Ou seja, submissa, puta, objeto para “machos” mal resolvidos, sem opinião própria e alvo de malditos enrustidos que matam as mulheres! Sim! Homens mal resolvidos tem medo do nosso sucesso, de mulheres que têm suas carreiras e, infelizmente, isso existe MUITO, dentro da minha profissão! Quantos casos já trouxe aqui na coluna de maridos que se aproveitavam e roubavam as obras das artistas mulheres como aconteceu com Margaret Keane ou elas acabavam internadas como loucas, como aconteceu com Camille Claudel

Sou mulher. E artista. E por isso sofro preconceito, assédio e desrespeito. Como todas as mulheres
Obra de Camille Claudel – Foto: Reprodução da internet

O caso é que mulheres não tem paz! E o machismo é tão profundo que até outras mulheres são MACHISTAS! E reacionárias! 

Mulheres! Só HOMENS MAL RESOLVIDOS VÃO SE SENTIR MENOS MACHOS PELO SEU SUCESSO PROFISSIONAL! SÓ HOMENS MAL RESOLVIDOS VÃO TENTAR DIMINUI-LA EM OBJETO SEXUAL. Quando descaradamente você for um profissional melhor que eles (que foi o que aconteceu comigo!) Não pense que um cara que chega, por exemplo, no dia da abertura da sua exposição, que você batalhou tanto para conseguir, e lhe “cantar” é porque ele a acha maravilhosa! Não! Ele está sendo invejoso e desrespeitoso!

Você é dona do seu corpo, suas vontades e se for artista como eu e outras tantas, MERECE RESPEITO! E VOCÊ NÃO É AGRESSIVA E NEM LOUCA E NEM PUTA, POR LUTAR POR SEUS DIREITOS E SEU TRABALHO! 

PENSE NISSO!

A luta é grande! Seja você trans , cis, de qualquer raça, de qualquer cor, de qualquer escolha de profissão, provavelmente já sabe que desde que nascemos trazemos na testa a palavra  “preconceito”! Por isso: APOIEM OUTRAS MULHERES! ENSINEM SEUS FILHOS HOMENS A SEREM “HOMENS” E NÃO “MACHOS”!

Quebre tabus! Seja você mesma! ❤️Compartilhe o trabalho de outras mulheres! Só assim a luta árdua será ganha! O maior absurdo?

Uma mulher SER CONTRA O FEMINISMO e ficar do lado de ditadores!

Pense nisso…

Paz vibiscum!

Foto principal: Cartaz “We Can Do It”, da década de 1940, com a figura conhecida como Rosie the Riveter (Rosie, a rebitadeira) e que foi inspirado em Naomi Parker Fraley, uma operária da Segunda Guerra

Ângela Diana

Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos.

Instagram angela_dianarte

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