Na Última Ceia foi servido vinho ou suco de uva?

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Por Edmilson Palermo Soares

Esta semana, um cliente me fez essa pergunta: “Na Última Ceia, foi servido vinho ou foi suco de uva?”

Bom, vou tentar responder por aqui, porque pode ser uma dúvida comum.

O problema começa quando vemos, na Sagrada Escritura, que as passagens que se referem à Santa Ceia nunca sequer mencionam “vinho” ou “suco de uva”, simplesmente se referem “ao cálice”.

Falei em um artigo no ano passado sobre o possível vinho da Santa Ceia.

Com as polarizações do mundo atual, aconteceu de se ter posições divergentes do assunto, e a discussão se acalorou e acabou virando um divisor de águas. Os evangélicos com a bandeira do suco de uva e os católicos, com o vinho.

Mas vamos fazer uma reflexão sobre o assunto sem um preconceito sobre ele.

O vinho representa o sangue de Jesus Cristo nas liturgias católicas, enquanto o suco de uva pode ser uma alternativa para crianças e alcoólatras em recuperação.

O vinho é citado na Bíblia 218 vezes, tanto de forma explícita como implícita, nos livros do Antigo e Novo Testamento. Vejamos alguns exemplos:

  • Gênesis 14:17-18 – vemos o rei Melquisedeque servindo vinho para Abrão;
  • Êxodo 29:40 – Deus ordena o uso do vinho como parte do sistema sacrificial;
  • 1 Crônicas 38-40 – Quando Davi foi proclamado rei, os seus homens festejaram por três dias com comida e vinho;
  • Salmo 104:15 – Deus fez o vinho que “alegra o coração do homem;
  • Isaías 25:6 – Promessa de que o Senhor um dia preparará uma grande festa para o Seu povo com alimentos ricos que incluem um “vinho purificado”;
  • João 2:1-11 – O primeiro milagre de Jesus foi transformar água em vinho nas bodas de Caná;
  • Mateus 26:27-29 – Jesus usa o vinho como símbolo de seu sangue;
  • Lucas 7:34 – Nosso Senhor bebia vinho;
  • Mateus 26:29 – Jesus disse que iria bebê-lo no céu conosco;
  • 1 Timóteo 5:23 – O apóstolo Paulo instruiu Timóteo a usar vinho em vez de “apenas água” para melhorar de um problema no estômago.

Temos, logo de saída no Velho Testamento, uma referência que se mostra um exemplo a ser evitado em Gênesis 9:21, quando Noé ficou bêbado e deitou-se sem roupas na sua tenda.

Fica claro que a embriaguez não é aceitável em nenhuma ocasião. Efésios 5:18 afirma: “E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito”.

Vale lembrar que, durante o Seder (Páscoa Hebraica), é tradição consumir vinho, pão sem fermento e ervas amargas, entre outros alimentos. O vinho, em particular, possui um papel central, simbolizando a alegria e a celebração da libertação do povo hebreu do Egito.

Jesus reuniu-se com os apóstolos num jantar final no qual partilharam o pão, que simbolizava o seu corpo, e o vinho que representava o sangue que por ele viria a ser derramado.

Na época de Jesus, o vinho era uma bebida muito segura, por conta da contaminação da água.

Os defensores de beber vinho na Santa Ceia têm a Escritura disponível para apoiar a sua posição, e os exemplos acima (com exceção de Noé) refletem como o vinho, quando usado corretamente e com moderação, pode realmente ser uma coisa boa.

Em 1 Coríntios 11:25, Cristo deixa claramente uma instrução para que a igreja: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto todas as vezes que o beberdes em memória de mim”. Seria correto que a presença de vinho fizesse alguém perder o foco e, assim, ignorar a ordem de Cristo?

Acredito que uma verdadeira Igreja Cristã não vai querer que alguém se afaste da Santa Ceia simplesmente por ter uma forte convicção contra o consumo de álcool, e nem o contrário. Mas este fato não muda o que aconteceu de fato na Santa Ceia Original.

Em nenhum lugar, na Palavra de Deus, vemos uma exigência em relação ao nível de fermentação do conteúdo do cálice. No entanto, se alguém tiver uma opinião forte sobre como melhor honrar o Salvador, não tem problema em seguir essa convicção. Entretanto, devemos ter cuidado para não nos esquecermos do que o cálice representa e não julgarmos um irmão ou irmã em Cristo em questões de opinião pessoal.

Jesus usou o vinho para instituir a Eucaristia.

Suco de uva ou vinho? O que foi servido na Santa Ceia? A polêmica divide opiniões, mas a coluna explica direitinho quem tem razão
Foto: Freepik

Suco de uva ou vinho?

Na época de Jesus, o vinho era chamado de “fruto da videira” pelos judeus. Como não havia garrafas ou tonéis adequados para conservar o vinho, as uvas da colheita eram guardadas para serem transformadas em vinho ao longo do ano.

Na maior parte do tempo, eram usadas uvas secas e não frescas.

Na época, a maioria dos vinhos eram fruto de uma mistura com água e até com especiarias e, uma vez que a bebida servida nesse momento tinha de ser pura, então era bastante forte e envelhecida de forma natural.

A época da colheita de uva pode variar conforme as regiões e o tipo de uva cultivada. A maturação da uva ocorre durante o verão até a metade do outono. É nesse período que se estabelece a qualidade da colheita.

Na Palestina e Israel, a vindima (colheita) acontece sempre no verão, entre os meses de agosto e outubro. Neste período, abril, a videira começa a brotar.

Tenhamos em mente que nenhuma uva fresca estaria disponível na época da Santa Ceia, que foi por volta do mês de abril.

Tire suas conclusões.

Uma boa e abençoada Páscoa.

Foto principal: Imagem gerada por IA/Freepik

Edmilson Palermo Soares

Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral. Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin

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