Por Renato Munhoz
Quem caminha pelos fundos de vale de Londrina e de tantas outras cidades do Paraná certamente já se deparou com uma placa de concreto indicando: “Nascente”.
Ela está ali, discreta, lembrando que naquele ponto nasce um fio de água que, pouco a pouco, dará origem a um córrego, alimentará um ribeirão e, mais adiante, ajudará a formar um rio. É um gesto importante. Afinal, aquilo que é identificado passa a existir também no olhar das pessoas.
Mas precisamos fazer uma pergunta que incomoda:
Será que apenas colocar uma placa é suficiente para proteger uma nascente?
A resposta, infelizmente, é não.
Uma placa não impede o descarte irregular de lixo. Não evita o pisoteio da vegetação. Não recupera a mata ciliar. Não impede o lançamento de esgoto clandestino. Muito menos desperta, sozinha, o sentimento de pertencimento da comunidade.
Ela informa. Mas quem protege são as pessoas.
Talvez a pergunta mais importante seja outra:
Você conhece a nascente que existe perto da sua casa?
Sabe qual córrego ela abastece? Que ribeirão recebe essa água? Em qual rio ela vai desaguar? Para onde segue esse percurso invisível que começa em um pequeno olho d’água escondido entre árvores, gramados ou áreas urbanas?
Pouca gente sabe responder.
E esse desconhecimento tem um preço alto.
Quando uma comunidade não conhece seu território, ela dificilmente cria vínculos com ele. Aquilo que não possui nome, história ou significado torna-se invisível. E aquilo que é invisível costuma ser abandonado.
Por outro lado, a experiência mostra exatamente o contrário: quando as pessoas conhecem uma nascente, elas passam a defendê-la.
Esse é um dos princípios mais poderosos da educação ambiental.
Uma criança que visita uma nascente dificilmente esquecerá aquele lugar. Um morador que descobre que o pequeno córrego ao lado de casa faz parte da bacia hidrográfica que abastece sua cidade passa a enxergar aquele espaço com outros olhos.
A placa deveria ser apenas o começo da conversa.
Imagine se cada nascente sinalizada tivesse também um pequeno painel contando sua história, indicando o nome do córrego que ela forma, mostrando o caminho das águas até o rio principal e convidando escolas, moradores e associações de bairro a adotarem aquele espaço.

Imagine trilhas interpretativas, visitas guiadas, mutirões de limpeza, monitoramento comunitário e atividades educativas envolvendo crianças, universidades e lideranças locais.
Nesse momento, a placa deixaria de ser apenas um objeto de sinalização para se transformar em uma porta de entrada para uma cultura de cuidado.
Londrina possui dezenas de fundos de vale, parques e áreas verdes que escondem verdadeiros berços da vida. Cada nascente representa o início de uma história que percorre quilômetros até chegar aos grandes rios da região.
Proteger essas áreas significa cuidar da qualidade da água, reduzir enchentes, preservar a biodiversidade, amenizar o calor urbano e garantir qualidade de vida para as próximas gerações.
A natureza nos ensina uma lição bonita: grandes rios começam pequenos.
Talvez a proteção ambiental também seja assim.
Ela começa com uma placa.
Mas só se torna realidade quando começa a brotar dentro das pessoas.
Porque, no fim das contas, a maior proteção de uma nascente não é uma cerca, um decreto ou uma placa.
É uma comunidade que sabe que aquela água faz parte da sua própria história.
E comunidade que conhece, protege. Sempre.
Foto principal: Emerson Dias/NCom
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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