Que corpo é esse?

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Por André Luiz Lima

Na Arte dos Encontros, existe uma pergunta que caminha comigo há muitos anos.

Ela nasceu no teatro, atravessou salas de ensaio, palcos, empresas, igrejas, viagens e incontáveis encontros. Com o tempo, percebi que ela nunca deixou de me acompanhar e continua sendo a primeira pergunta que faço quando alguém inicia um processo comigo.

A pergunta que sempre me perseguiu é "Que corpo é esse?" Porque, em todo encontro, existem muitos corpos
Fotos: Acervo pessoal

Que corpo é esse?

Durante muito tempo pensei que essa pergunta estivesse relacionada ao corpo físico, à postura, aos gestos ou à presença diante de uma plateia.

Hoje compreendo que ela fala de algo muito maior.

Ela fala da maneira como existimos no mundo.

Vivemos aprendendo a fazer.

Aprendemos a estudar.

Aprendemos a produzir.

Aprendemos a falar.

Aprendemos a liderar.

Aprendemos a convencer.

Mas quase nunca aprendemos a perceber.

E talvez seja exatamente aí que a verdadeira expressão comece.

Há algum tempo, durante um processo de preparação, uma experiência abriu uma nova janela para essa reflexão.

Um mentorado conduzia um encontro em uma cidade do interior de São Paulo. Havia preparado cuidadosamente cada palavra, estudado o conteúdo, organizado a sequência das ideias. Como acontece com todos nós, queria transmitir sua mensagem da melhor maneira possível.

Atrás dele havia uma porta.

Durante toda a apresentação, essa porta se abria diversas vezes.

Pessoas entravam.

Pessoas saíam.

E, naturalmente, os olhares da plateia acompanhavam aquele movimento.

Dias depois nos encontramos para conversar sobre aquela experiência.

Ele começou falando do conteúdo.

Disse que havia conseguido seguir o roteiro.

Que lembrava de tudo o que havia preparado.

Que a mensagem tinha sido transmitida.

Então fiz apenas uma pergunta.

— E a porta?

Ele sorriu.

— Eu via a porta.

— E as pessoas?

— Também as via entrando e saindo.

— E percebeu que, a cada movimento, os olhares deixavam você e acompanhavam quem entrava?

Ele respondeu:

— Sim… eu percebia tudo isso.

Então fiz a última pergunta.

— E por que você continuou exatamente da mesma maneira?

Houve um silêncio.

Depois de alguns instantes, ele respondeu:

— Porque eu não sabia o que fazer com aquilo.

Foi naquele silêncio que compreendemos algo importante.

O problema não era a falta de percepção.

O problema era acreditar que comunicar significava apenas seguir o roteiro.

Na verdade, tudo já fazia parte daquele encontro.

A porta fazia parte.

As pessoas faziam parte.

Os olhares faziam parte.

O silêncio fazia parte.

O inesperado fazia parte.

Nada estava fora da comunicação.

Foi então que uma frase ganhou ainda mais força dentro de mim.

Expressão não é aquilo que acontece em você.
Expressão é aquilo que acontece entre você e o mundo.

Essa pequena palavra — entre — mudou completamente a maneira como compreendo a comunicação.

Porque é nesse entre que a vida acontece.

Um professor pode preparar a melhor aula de sua carreira. Mas, se não perceber o olhar cansado de seus alunos, talvez continue falando quando o encontro já esteja pedindo uma pausa.

Um pai pode acreditar que está educando um filho. Mas, naquele instante, talvez o filho não precise de um conselho. Talvez precise apenas sentir que foi ouvido.

Um líder pode chegar a uma reunião com todas as metas muito bem definidas. Mas, se não perceber o silêncio de sua equipe, poderá sair acreditando que todos concordaram, quando, na verdade, ninguém se sentiu convidado a participar.

Um palestrante pode dominar completamente o conteúdo. Ainda assim, se não perceber que o ambiente mudou, continuará falando para uma plateia que já está vivendo outro momento.

Todos esses exemplos têm algo em comum.

O problema nunca foi a falta de conhecimento.

O desafio é desenvolver a capacidade de perceber o encontro enquanto ele acontece.

Comunicar nunca foi apenas transmitir uma informação.

Comunicar é construir uma relação viva com tudo aquilo que está acontecendo.

É perceber que um olhar também fala.

Que um silêncio também comunica.

Que uma pausa pode dizer mais do que muitas palavras.

Que um acontecimento inesperado não interrompe o encontro.

Ele passa a fazer parte dele.

Talvez seja exatamente isso que procuro desenvolver no Poder da Expressão.

Muitas pessoas imaginam que ensino alguém a falar melhor.

Mas, antes da palavra, existe algo mais importante.

Existe a percepção.

Perceber a própria respiração.

Perceber o corpo.

Perceber o outro.

Perceber o espaço.

Perceber o ambiente.

Perceber aquilo que não estava previsto.

Mas existe uma diferença importante.

Perceber não basta.

É preciso aprender a dialogar com aquilo que a vida apresenta.

Não se trata de abandonar o roteiro.

O roteiro continua sendo importante.

Mas deixa de ser uma prisão para se tornar um apoio.

Porque a vida nunca acontece exatamente como ensaiamos.

Talvez seja por isso que a arte sempre tenha me ensinado mais sobre a vida do que sobre o palco.

No teatro, aprendemos que um objeto que cai, uma luz que falha, um silêncio inesperado ou uma reação da plateia não precisam ser combatidos. Eles podem ser incorporados.

Na vida acontece o mesmo.

Todos os dias algo abre uma porta que não estava no roteiro.

Uma notícia.

Um atraso.

Uma emoção.

Uma despedida.

Um encontro inesperado.

A pergunta deixa de ser:

“Como volto ao meu plano?”

E passa a ser:

“Como dialogo com aquilo que a vida acaba de me oferecer?”

Talvez seja essa a maior expressão de presença.

Foi isso que aquela porta me ensinou.

Ela nunca foi um problema.

Ela era parte do encontro.

Assim como as pessoas.

Assim como o ambiente.

Assim como todos os corpos presentes naquele instante.

Ao longo da minha caminhada, procurando compreender o que unia todas essas experiências — o teatro, a direção, as viagens, a comunicação, os encontros e as pessoas que passaram pelo meu caminho — comecei a perceber que todas me conduziam ao mesmo lugar.

À presença.

E talvez a presença seja uma das formas mais profundas de amor.

Não o amor reduzido ao sentimento romântico ou à palavra que tantas vezes evitamos pronunciar.

Mas o amor como escolha de estar inteiro diante do outro.

Porque amar talvez seja exatamente isso.

Perceber antes de julgar.

Escutar antes de responder.

Respirar antes de reagir.

Acolher antes de convencer.

Quando fazemos isso, deixamos de olhar apenas para nós mesmos e passamos a cuidar do espaço que existe entre nós.

E talvez seja exatamente nesse espaço que a verdadeira expressão acontece.

Talvez seja por isso que continuo voltando à mesma pergunta.

Que corpo é esse?

É o corpo que apenas executa?

Ou é o corpo que percebe?

O corpo que respira.

O corpo que escuta.

O corpo que observa.

O corpo que compreende que nunca está sozinho.

Porque, em todo encontro, existem muitos corpos.

O corpo de quem fala.

O corpo de quem escuta.

O corpo de quem chega.

O corpo de quem parte.

O corpo do silêncio.

O corpo do espaço.

O corpo do tempo.

Todos se afetam.

Todos se comunicam.

Todos constroem o encontro.

Ao longo dos anos, compreendi que meu trabalho nunca foi ensinar alguém a falar em público.

Meu trabalho é despertar uma outra forma de presença.

Uma presença capaz de perceber, integrar e responder ao instante.

Porque comunicar não é controlar tudo o que acontece.

É participar conscientemente do que está acontecendo.

Talvez a verdadeira expressão não seja encontrar as palavras certas.

Talvez seja aprender a estar tão presente que o mundo deixe de acontecer diante de nós e passe a acontecer conosco.

Porque, no fim, a pergunta nunca foi apenas:

“Que corpo é esse?”

Talvez a pergunta sempre tenha sido outra:

“Como esse corpo escolhe encontrar o mundo?”

E, para mim, a resposta começa quando compreendemos que toda verdadeira expressão nasce do encontro.

E que o nome mais profundo desse encontro talvez seja, simplesmente, amor.

Viva a Arte dos Encontros

Viva a Vida, André.

André Luiz Lima

Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural.

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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

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Respostas de 3

  1. Maravilhoso André!!!! Obrigada por provocações tão necessárias. Obrigada pela oportunidade deste encontro. Obrigada por ser e escrever e compartilhar!

  2. André, só tenho agradecer por tua provocação a cada texto, a pergunta é pertinente e desafiadora, nos faz refletir, quem sou eu, o que eu quero e para onde eu vou…acredito que através das conexões, dos encontros e das reflexões encontraremos algumas respostas.

  3. Genial! Amei! As tuas matérias, qualquer seja a situação, nunca deixam de provocar de forma inteligente e inspiradora. Até a próxima!!

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