Por professor Renato Munhoz
Confesso: nunca imaginei ver o que vi em Apucarana, na minha porta, naquela noite.
Não era uma cena de filme. Não era uma fotografia de algum lugar distante atingido por um desastre. Era a minha cidade. Eram as nossas ruas.
Árvores espalhadas pelo chão. Postes inteiros derrubados. Telhas por todos os lados. Casas descobertas. Muros e paredes que simplesmente ruíram. Ruas que, poucas horas antes, faziam parte da nossa rotina e que, depois do temporal, pareciam cenário de guerra.
Na noite de 21 de setembro, Apucarana foi atingida por uma tempestade com ventos que chegaram a 125 km/h. O primeiro balanço apontou mais de 3 mil famílias afetadas; dias depois, a Defesa Civil já estimava mais de 5 mil residências atingidas.
Mas números, por maiores que sejam, não conseguem contar tudo.
Porque uma casa destelhada não é apenas um telhado.
É o lugar onde alguém construiu seus sonhos.
É onde uma família guardou fotografias, documentos, lembranças, móveis comprados com muito esforço. É onde uma criança dormia. É onde alguém acreditava estar protegido.
A fila da lona
E então veio uma das cenas que mais me marcou: a fila da lona.
Ali, talvez, estivesse uma das imagens mais humanas de toda aquela tragédia.
Pessoas esperando por uma lona para cobrir aquilo que havia sobrado de suas casas. Pessoas como eu, impactadas, tentando compreender o que havia acontecido em poucas horas.
E, naquela fila, a tragédia tinha rosto.
Eram amigos. Vizinhos. Pessoas que encontramos todos os dias. Gente que conhecemos do cotidiano.
As conversas eram simples, mas carregadas de emoção:
— Como você está?
— Estragou muito por lá?
— E o susto?
— Você conseguiu dormir?
— Sua família está bem?
Perguntas pequenas diante de uma situação gigantesca.
Confesso que, naquele momento, este educador perdeu a palavra.
E engoliu o choro.
Porque há momentos em que a realidade é tão forte que até quem vive de palavras fica sem saber o que dizer.
E talvez seja justamente aí que começamos a aprender.
Primeira lição: a mudança climática bateu à nossa porta
Há tempos falamos sobre mudanças climáticas.
Falamos sobre aquecimento global, eventos extremos, alterações no regime das chuvas, desastres ambientais.
Mas, muitas vezes, tudo parece distante.
Até acontecer perto da gente.
Em Apucarana, a mudança climática não bateu à porta.
Entrou pela maioria dos telhados.
Entrou acompanhada de um barulho ensurdecedor. Entrou quebrando telhas, derrubando árvores, interrompendo a energia, invadindo casas.
Foi como se a natureza gritasse:
“Eu estou aqui.”

E talvez esta seja a primeira grande lição: precisamos estar mais preparados.
Governos, empresas, escolas, organizações comunitárias e cidadãos.
Precisamos pensar em prevenção, sistemas de alerta, infraestrutura, planejamento urbano, áreas verdes, moradias mais seguras, protocolos de emergência e redes de solidariedade.
Não porque queremos viver esperando uma tragédia.
Mas porque não podemos mais agir como se ela fosse impossível.
Em uma mensagem de WhatsApp, Tiago, diretor do Colégio São José, preocupado conosco, escreveu uma frase que ficou na minha cabeça:
“Infelizmente, este será nosso novo normal.”
Talvez seja difícil aceitar.
Mas precisamos nos preparar.
A conta chegou.

Segunda lição: quando tudo desaba, o humano aparece
Se o temporal mostrou a força da natureza, também mostrou a força das pessoas.
Foi bonito ver gente ajudando gente.
Pessoas que mal tinham conseguido entender o que havia acontecido correndo para a rua para saber se o amigo estava bem.
Vizinhos ajudando a puxar móveis.
Famílias acolhendo quem estava com a casa mais molhada.
Pessoas dividindo uma lona.
Alguém oferecendo um colchão.
Outro trazendo comida.
Alguém perguntando:
“O que você precisa?”
Essa talvez seja uma das maiores riquezas que possuímos e que, em tempos de tanta individualização, às vezes esquecemos: a capacidade de cuidar uns dos outros.
Mais de 3 mil famílias já haviam sido contabilizadas como atingidas nos primeiros levantamentos, e os números cresceram nos dias seguintes.
Mas ninguém precisava ser apenas um número.
Cada família tinha uma história.
Cada casa tinha uma memória.
Cada pessoa tinha medo.
E, naquele momento, a solidariedade transformou desconhecidos em comunidade.
Esta lição precisa permanecer depois que as águas se acalmaram e os telhados forem reconstruídos.
Terceira lição: a tempestade não atingiu todos da mesma maneira
Aqui está talvez a parte mais incômoda desta história.
Não foi igual para todo mundo.
A chuva caiu sobre todos.
O vento passou pela cidade inteira.
Mas seus efeitos foram diferentes.
Os mais pobres, as famílias vulneráveis, os moradores das periferias, aqueles que vivem em casas mais simples, com telhados mais frágeis, tiveram muito menos condições de se proteger e reconstruir.
Para alguns, foi o prejuízo de um patrimônio.
Para outros, foi perder praticamente tudo.
O colchão que não existia mais para dormir.
O móvel colocado na calçada.
A roupa molhada.
O alimento perdido.
A parede que caiu.
O teto que desapareceu.
A porta que voou para longe.
O espaço que deixou de ser casa.
E aqui a sustentabilidade precisa fazer uma pergunta que não pode ser ignorada:
Quem paga a conta dos eventos climáticos extremos?
Porque as mudanças climáticas têm, sim, nome, endereço e CPF.
Elas atingem pessoas concretas.
E quase sempre os mais vulneráveis possuem menos recursos para se proteger, se recuperar e recomeçar.
E talvez exista uma quarta lição: resiliência
Depois de tudo, ficou uma palavra.
Resiliência.
Não aquela resiliência romantizada, como se as pessoas tivessem que simplesmente “ser fortes” diante de qualquer sofrimento.
Mas a resiliência que nasce da comunidade.
Da mão estendida.
Do vizinho.
Da solidariedade.
Da capacidade de reorganizar a vida depois que o inesperado passa.
Apucarana ainda está reconstruindo.
As árvores serão retiradas. Os postes serão recolocados. As casas serão cobertas novamente. As ruas voltarão à rotina.
Mas talvez não devêssemos voltar exatamente ao que éramos antes.
Precisamos voltar mais conscientes.
Mais preparados.
Mais solidários.
Mais atentos à emergência climática.
Porque sustentabilidade não é apenas separar o lixo, economizar água ou plantar uma árvore — embora tudo isso continue sendo importante.
Sustentabilidade também é pensar como queremos organizar nossas cidades diante de um clima que já está mudando.
É pensar onde e como construímos.
É cuidar das pessoas.
É proteger quem está mais vulnerável.
É criar políticas públicas capazes de prevenir e responder.
É compreender que meio ambiente não é algo separado da nossa vida.
Nós somos parte dele.
Talvez por isso aquela noite tenha me ensinado tanto.
Eu estava no olho do furacão.
Vi a força da destruição na minha porta.
Vi pessoas chorando.
Vi casas abertas para o céu.
Vi a natureza mostrando sua força.
Mas também vi algo que nenhuma tempestade conseguiu derrubar:
A capacidade humana de estender a mão.
E talvez seja justamente essa a nossa maior esperança.
Porque o telhado pode ser reconstruído.
A parede pode ser levantada.
A cidade pode se reorganizar.
Mas o que precisamos reconstruir, juntos, é a nossa capacidade de cuidar uns dos outros e de cuidar da casa que compartilhamos.
A casa é Apucarana.
A casa é o planeta.
E, desta vez, o aviso chegou muito perto.
Será que vamos escutar?
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE.
