O que está em jogo no 2º. turno? A casa que queremos deixar para o futuro

img_20230210_092715_1-FErnando-Frazão-Agencia Brasil

Por professor Renato Munhoz

Imagine que você está construindo uma casa para seus filhos e netos. Uma casa com água limpa, árvores, alimentos, ar puro e espaço para viver com dignidade. Agora imagine que, no meio da construção, alguém proponha derrubar parte das paredes, vender o terreno, retirar os recursos naturais e deixar para depois a preocupação com a segurança dos moradores. Você confiaria a essa pessoa as chaves da sua casa?

Pois bem, o Brasil é a nossa casa. E é justamente sobre o futuro desse lar que precisamos conversar neste segundo turno das eleições presidenciais.

Não se trata apenas de escolher um presidente, comparar promessas ou avaliar a economia. Trata-se também de refletir sobre o modelo de desenvolvimento que queremos, sobre o valor que atribuímos à natureza e sobre as consequências das decisões políticas para as próximas gerações.

No dia 25 de outubro, quando voltarmos às urnas, estaremos diante de escolhas que também dizem respeito ao futuro ambiental do país. E seria um erro deixar essa discussão ser engolida pelas paixões políticas, pelas disputas nas redes sociais ou pela velha estratégia de transformar adversários em inimigos.

A pergunta que precisamos fazer não é apenas de quem gostamos ou de quem não gostamos. É: que Brasil queremos construir e em quais condições desejamos viver?

Quando os números contam uma história

Vamos começar pelos dados. Porque, quando falamos de meio ambiente, opiniões são importantes, mas os números nos ajudam a compreender o tamanho do desafio.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a taxa anual de desmatamento da Amazônia Legal, medida pelo sistema Prodes, chegou a 13.038 quilômetros quadrados em 2021, durante o governo Jair Bolsonaro. Em 2022, foram 11.594 km².

Com a mudança de governo e a retomada de ações de fiscalização e prevenção, a taxa caiu para 9.064 km² em 2023, 6.288 km² em 2024 e 5.796 km² em 2025. Isso representa uma redução de aproximadamente 50% em relação a 2022.

É uma mudança expressiva e merece ser reconhecida. Não significa, porém, que o problema esteja resolvido. Milhares de quilômetros quadrados de floresta continuam sendo perdidos, e o Brasil ainda precisa avançar muito para eliminar o desmatamento ilegal.

Também é importante lembrar que a política ambiental não se resume à Amazônia. O Cerrado, a Caatinga, o Pantanal, a Mata Atlântica e o Pampa enfrentam pressões próprias, que vão da expansão agropecuária aos incêndios, à fragmentação de habitats e à degradação dos recursos hídricos. Os levantamentos do INPE mostram que a situação varia entre os biomas e exige estratégias específicas de proteção.

A comparação dos números não encerra o debate sobre os dois governos, mas nos oferece um ponto de partida concreto: decisões políticas, recursos públicos, fiscalização e prioridades administrativas fazem diferença na conservação ambiental.

A floresta em pé vale mais do que aquilo que retiramos dela?

Durante anos, o avanço do garimpo ilegal em territórios indígenas deixou um rastro de destruição. O mercúrio contamina rios e peixes, a água perde qualidade, os alimentos ficam comprometidos e doenças encontram terreno fértil em comunidades submetidas à violência e à desassistência.

O caso do povo Yanomami tornou essa realidade impossível de ignorar.

Em 2022, foram registrados 343 óbitos de indígenas Yanomami. Em 2023, foram 308, segundo dados do Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena. A situação envolvia desnutrição, doenças infecciosas, malária, violência e graves dificuldades de acesso à assistência. A deterioração dos sistemas de notificação no período anterior também exige cautela na interpretação desses números.

A emergência sanitária foi declarada em janeiro de 2023, e as ações federais posteriores buscaram ampliar a assistência à saúde e combater a mineração ilegal. Em balanço divulgado em janeiro de 2025, o Ministério dos Povos Indígenas informou uma redução de 91% nos garimpos consolidados e de 95,76% na abertura de novos garimpos, em comparação com as referências utilizadas pelo governo. São resultados relevantes, embora a continuidade da fiscalização permaneça indispensável.

E aqui precisamos compreender algo fundamental: proteger os povos indígenas não é uma pauta isolada, muito menos um favor concedido a determinadas comunidades. Seus territórios ajudam a conservar florestas, nascentes, biodiversidade e conhecimentos acumulados ao longo de gerações.

Quando uma comunidade perde seu território, sua casa, não perde apenas um pedaço de chão. Pode perder sua fonte de alimento, suas referências culturais, sua autonomia e as condições necessárias para transmitir seus saberes aos mais jovens.

O segundo turno define muito mais que um presidente: está em jogo a casa que queremos deixar para o futuro. O Brasil precisa escolher entre explorar suas riquezas sem limites ou conciliar desenvolvimento e proteção ambiental
Foto: Orlando K Junior/Divulgação/Agência Brasi

É possível discutir desenvolvimento econômico, mineração e geração de empregos sem ignorar esses direitos. O que não podemos é tratar a vida humana e a natureza como obstáculos descartáveis diante de qualquer promessa de lucro.

A ciência não é inimiga do desenvolvimento

Outro ponto merece nossa atenção: o debate sobre as mudanças climáticas.

O aquecimento global não é uma invenção de partidos políticos, uma moda passageira ou uma conspiração internacional. É um fenômeno sustentado por um amplo conjunto de evidências científicas, relacionado principalmente ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa provocado pelas atividades humanas.

Durante o governo Bolsonaro, pesquisadores identificaram uma combinação de discursos de contestação científica, enfraquecimento de mecanismos de participação social e mudanças institucionais que prejudicaram a governança climática brasileira. Estudos acadêmicos analisaram esse processo e seus efeitos sobre as políticas ambientais.

O problema de negar ou minimizar os riscos climáticos é que a natureza não espera que terminem nossas disputas ideológicas.

As secas prolongadas, as ondas de calor, as chuvas extremas e os incêndios exigem prevenção, planejamento e capacidade de resposta. O Brasil já conhece o custo humano, econômico e ambiental de eventos extremos.

Não precisamos transformar a ciência em religião, nem tratar qualquer política ambiental como perfeita. Precisamos, isso sim, reconhecer as evidências, avaliar as medidas adotadas e cobrar resultados de quem governa.

Foto: Magnific

Desenvolvimento de verdade é aquele que melhora a vida das pessoas sem destruir as condições que tornam essa vida possível.

E os interesses de fora? Quem ficará com a riqueza do nosso chão?

Há ainda uma questão que merece entrar nessa conversa: o interesse internacional pelos recursos minerais brasileiros.

O Brasil possui reservas relevantes de terras raras e outros minerais considerados estratégicos para tecnologias como veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos e equipamentos de defesa. Esses elementos não são exclusivos do território brasileiro, mas sua disponibilidade e seu potencial econômico colocam o país em posição importante nas disputas globais por cadeias de fornecimento.

Os Estados Unidos, por exemplo, vêm adotando medidas para fortalecer suas cadeias de suprimento de minerais críticos e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros. Essa prioridade está registrada em iniciativas oficiais do governo norte-americano.

Diante disso, precisamos perguntar: qual será o papel do Brasil nessa nova corrida mineral?

Vamos apenas exportar matéria-prima ou desenvolver tecnologia, gerar empregos qualificados e agregar valor aos nossos recursos? Como garantir que a exploração respeite as comunidades locais, os territórios indígenas e os limites ambientais? Quem fiscalizará as atividades e quem ficará com os benefícios econômicos?

Essas perguntas não significam rejeitar investimentos estrangeiros ou defender que o país deixe de aproveitar suas riquezas naturais. Significam exigir soberania, transparência e responsabilidade.

A riqueza mineral pode contribuir para o desenvolvimento brasileiro. Mas, se a exploração ocorrer sem planejamento, fiscalização e proteção ambiental, o lucro de hoje poderá se transformar no passivo social e ecológico de amanhã.

E não podemos esquecer: uma floresta destruída, um rio contaminado e uma comunidade expulsa de seu território não se recompõem na mesma velocidade com que se assina um contrato.

A porteira aberta e a conta que chega depois

Lembremos da expressão “passar a boiada”, utilizada pelo então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles em uma reunião ministerial de abril de 2020, ao defender o aproveitamento da atenção pública concentrada na pandemia para promover mudanças infralegais na área ambiental.

A metáfora da porteira aberta nos ajuda a refletir sobre um risco importante: quando a fiscalização perde força, as regras ambientais são enfraquecidas e a proteção da natureza deixa de ser prioridade, os efeitos podem ultrapassar em muito a duração de um mandato.

Não é necessário afirmar que toda proposta de flexibilização ambiental produzirá automaticamente uma tragédia. O que precisamos é examinar cada medida, seus riscos, seus mecanismos de controle e suas consequências de longo prazo.

Quem paga a conta quando uma nascente seca? Quem arca com o prejuízo quando uma enchente destrói casas e plantações? Quem devolve a uma criança o rio onde seus avós pescavam, quando esse rio está contaminado?

E quem explica às futuras gerações que tínhamos conhecimento dos riscos, mas preferimos ignorá-los?

A resposta não é simples. Mas sabemos que os custos ambientais costumam atingir com mais força as populações vulneráveis, as comunidades tradicionais, os pequenos produtores e aqueles que dispõem de menos recursos para se proteger.

Por isso, a responsabilidade ambiental não pode ser tratada como luxo de quem já tem tudo. Ela é parte essencial da justiça social.

Não é sobre gostar de um personagem. É sobre o mundo que queremos habitar.

Sei que o Brasil chega a mais uma eleição atravessado por tensões, mágoas e divisões. Há quem vote movido pela economia; outros, pela segurança, pela religião, pelos valores familiares ou pela rejeição a determinado candidato.

Essas preocupações fazem parte da democracia. Ninguém precisa concordar com tudo o que um governo faz, nem deixar de cobrar erros porque se identifica com um partido.

Mas precisamos ter cuidado para não permitir que a antipatia por uma pessoa fale mais alto do que a análise das propostas, do histórico de gestão e das consequências concretas das políticas públicas.

O debate ambiental precisa estar acima das paixões pessoais. E isso vale para todos os lados.

Não basta um candidato falar em sustentabilidade. É preciso verificar como pretende proteger os biomas, combater o garimpo ilegal, fortalecer a fiscalização, enfrentar as mudanças climáticas e garantir os direitos dos povos indígenas. Também é necessário avaliar como suas propostas conciliam produção, emprego, renda e conservação.

O mesmo rigor deve ser aplicado a quem já governa: resultados positivos merecem reconhecimento, mas não dispensam novas cobranças.

A democracia não exige que pensemos igual. Exige que tenhamos condições de escolher com informação, consciência e responsabilidade.

E é justamente por isso que a questão ambiental precisa ocupar um lugar central nesta eleição. Não como arma de campanha, mas como compromisso com a vida.

A nossa casa, o nosso futuro

Gosto de pensar que cuidar do meio ambiente é, de alguma forma, aprender a cuidar da casa comum. Uma casa que não pertence exclusivamente a quem está vivo hoje, porque também será habitada por aqueles que ainda nem nasceram.

Temos muito a fazer. Precisamos produzir alimentos, gerar empregos, reduzir desigualdades, ampliar o acesso à moradia e construir oportunidades para milhões de brasileiros. Nada disso é incompatível com a proteção ambiental. Pelo contrário: um país que destrói seus recursos naturais compromete parte das próprias condições de prosperidade.

No dia 25 de outubro, ao escolhermos nossos representantes, vale olhar para além dos discursos mais inflamados e das disputas nas redes sociais. Vale perguntar o que cada projeto político propõe para a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Mata Atlântica, a Caatinga e o Pampa. Vale investigar como pretende proteger nossas águas, nossas florestas e nossa biodiversidade.

Não se trata de decidir apenas quem ocupará o Palácio do Planalto. Trata-se também de refletir sobre que futuro queremos construir para o Brasil.

Porque, no fim das contas, a pergunta que fica é muito simples: qual é a casa que queremos habitar nos próximos anos?

Uma casa em que a natureza seja vista apenas como mercadoria, ou uma casa em que o desenvolvimento caminhe junto com o respeito à vida?

Uma casa em que as decisões sejam tomadas pensando somente nos resultados imediatos, ou uma casa em que as futuras gerações também tenham direito a um lugar digno para viver?

A escolha é política, sim. Mas é também ética, social e ambiental.

Pense nisso. Afinal, a Terra não é uma herança que recebemos para gastar sem limites. É uma casa que habitamos por algum tempo e que temos a responsabilidade de entregar, em condições de continuar acolhendo a vida, àqueles que virão depois de nós.

Foto principal: Fernando Frazão/Agência Brasil

Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.

Me siga no Instagram: @profrenatomunhoz

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