Enurese noturna tem tratamento mas pode levar tempo e exige participação da família
Vinícius Fonseca
Especial para O LONDRINENSE
É no período da noite que o xixi escapa molhando pijama e colchão. Esse cenário é muito comum, principalmente na época do desfralde, mas se continuar após os 5 anos de idade, o problema requer atenção. Pode se tratar de uma disfunção chamada enurese noturna, ou “xixi na cama”.
A estimativa é que a falta de controle da bexiga, durante o sono, afete cerca de 15% das crianças acima dos 5 anos e 5% das crianças com 10 anos. Na maioria meninos, que tem a primeira etapa de desenvolvimento mais lenta.
A urologista pediátrica Salwa Sayed explica que diferentes motivos podem ser os responsáveis pelo surgimento da enurese noturna, como fatores psicológicos como, por exemplo, a chegada de um irmão. No entanto, há uma prevalência de questões ligadas a genética. Segundo ela, até 75% das crianças com o problema têm parentes que já apresentaram a disfunção. Outro ponto ressaltado pela especialista é que a enurese pode estar relacionada a fatores neurológicos, principalmente Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
A médica aponta que, pelo fato do “xixi na cama” ser considerado normal durante parte da infância, muitos pais acabam demorando para buscar ajuda. No entanto, ela orienta a busca por auxílio médico como a melhor saída, já que a persistência do problema pode ocasionar danos psicológicos à criança, além de perdas materiais. “Há vários fatores causais. Por isso é necessária a indicação médica para o melhor tratamento”, explica.
Como nessa idade a maioria das crianças já têm controle da bexiga, o paciente com enurese noturna pode ser vítima de bullying e isso pode desencadear outros problemas. Entre os possíveis impactos na vida do indivíduo podem estar o medo de realizar atividades sociais que a deixe exposta, como dormir fora de casa; a resistência em ingerir líquidos e, ainda, o medo de dormir. “Algumas crianças evitam o sono, o que a afetará no dia seguinte. Também passam a evitar o consumo de água”, comenta a psicóloga Rebeca Beckner.
Rebeca cita ainda que a enurese pode acarretar problemas de autoestima pois, ao observar as demais crianças tendo uma rotina “normal”, o paciente pode passar a não se sentir pertencente ao grupo, buscando o isolamento e em alguns casos, desenvolver quadros de ansiedade.
Tratamento
Por envolver fatores tanto neurológicos, psicológicos e hereditariedade, o tratamento deve começar após um diagnóstico médico. As medidas envolvem o uso de medicamentos, fisioterapias e necessitam da participação dos pais.
A fisioterapeuta pélvica Edine Kitahara esclarece que, para alcançar o melhor resultado, o tratamento pode levar meses ou até anos, pois depende de uma reeducação do paciente quanto as rotinas de ida ao banheiro e também de ingestão de líquido. “As crianças muitas vezes têm pressa de fazer o xixi porque querem brincar. É preciso reeduca-las até mostrando que, nessa hora, ela precisa estar relaxada e ter paciência”, exemplifica.
Os procedimentos incluem o uso de eletrodos na via sensitiva ligada a enervação que vai à bexiga, localizadas nas costas ou na perna do paciente, também jogos que ensinam a criança a fazer o xixi de modo correto. “Ele senta em uma cadeira simulando o vaso sanitário e, com jogos, ensinamos como funciona o assoalho pélvico de forma lúdica”, sinaliza a fisioterapeuta.
Faz parte do tratamento o uso de um calendário miccional onde devem ser marcados todos os horários em que a criança fez xixi e o volume de urina, além dos horários em que bebeu líquido e também a quantidade ingerida. Assim é possível, segundo Edine, mensurar a evolução do quadro.
A fisioterapeuta aconselha ainda a que sejam evitados os consumos de bebidas com cafeína, chás, refrigerantes ou muito ácidas como suco de laranja ou limão, principalmente cerca de duas horas antes de dormir, pois estimulam a produção de urina.
Levantar de madrugada de duas em duas horas para levar o filho ao banheiro, na tentativa de educar sua bexiga, incentivar o consumo de água apesar do receio da criança, e ajudá-la a encarar a frustração de não conseguir passar a noite na casa de colegas e parentes. Essa foi, por algum tempo, a realidade da representante de moda Viviane Frieberger Prazeres, mãe do pequeno Pedro, hoje com 10 anos.
Ela conta que começou a desconfiar da enurese no filho quando começou a tirar o caçula, João, das fraldas, já que a diferença dos dois é de quase 4 anos. “O Pedro ficava bem de dia, mas à noite, o meu caçula já estava saindo da fralda e ele nada”, recorda.
Moradores de Arapongas (PR), eles chegaram a ir à Curitiba (PR) em busca de tratamento, mas não obtiveram sucesso. Foi em Londrina, então com o uso de medicamentos, acompanhamento fisioterápico e todo um processo de reeducação que eles começaram a sentir a diferença.
Viviane considera que toda essa etapa pode ser desgastante tanto para a criança quanto para os pais, mas comemora o fato do problema ter sido solucionado e avalia que isso é o mais importante. “Há 6 meses paramos com a fisioterapia e acredito que esse assunto (enurese) não será um tabu na vida dele”, comemora a mãe.
Principais hábitos para a educação da bexiga:
- Preferir ingestão de água, evitar café, refrigerante, sucos muito ácidos e chocolate;
- Evitar a ingestão de líquido pelo menos 2 horas antes de dormir;
- Posicionamento correto ao urinar: preferencialmente sentado e usar um banquinho baixo para que as crianças apoiem os pés, caso não alcancem o chão, tronco inclinado para a frente e joelhos acima de 90°

