Por professor Renato Munhoz
Em um mundo cada vez mais complexo e interconectado, a educação não pode se limitar a transmitir conhecimentos prontos. Ela deve formar indivíduos capazes de atuar ativamente em suas vidas e na sociedade, assumindo o protagonismo de suas próprias trajetórias. O tema desta semana, “Educação para o Protagonismo Educacional dos Educandos”, convida-nos a refletir sobre como os conteúdos trabalhados em sala de aula podem fomentar essa autonomia, incentivando alunos a se tornarem agentes de mudança. Inspirados em pensadores da educação, exploraremos como esses conteúdos não apenas informam, mas também empoderam, conectando o passado e o presente para lidar com questões atuais.
Protagonismo educacional
O protagonismo educacional refere-se à capacidade dos alunos de se envolverem ativamente no processo de aprendizado, questionando, criando e aplicando conhecimentos de forma crítica. Como destaca Paulo Freire em sua obra clássica Pedagogia do Oprimido (1970), a educação deve ser uma prática de liberdade, onde o educando não é mero receptor, mas coautor do saber. Freire argumenta que, ao invés de uma “educação bancária” – que deposita informações nos alunos como se fossem contas vazias –, devemos promover uma educação problematizadora, que desperta a consciência crítica e incentiva a ação transformadora. Nesse sentido, os conteúdos escolares atuam como ferramentas para que os educandos percebam sua agência, ou seja, sua capacidade de influenciar o entorno e fazer diferença em suas vidas pessoais e coletivas.
Mas como isso se materializa na prática? Os conteúdos trabalhados em sala podem colaborar diretamente na formação de sujeitos protagonistas ao serem apresentados não como fatos isolados, mas como pontes para reflexões sobre a realidade. Por exemplo, ao ensinar ciências, um professor pode relacionar conceitos de sustentabilidade com problemas ambientais locais, como a poluição de rios em Londrina, incentivando os alunos a proporem soluções comunitárias. Isso não só reforça o aprendizado, mas também cultiva habilidades como liderança, empatia e responsabilidade social.
De acordo com John Dewey, em Democracia e Educação (1916), o aprendizado é experiencial e deve preparar os indivíduos para a vida democrática, onde cada um contribui ativamente para o bem comum. Assim, os conteúdos se tornam catalisadores para que os educandos vejam seu protagonismo, vejam a si mesmos como capazes de intervir na sociedade, combatendo desigualdades ou promovendo inovações.
Um exemplo particularmente rico é o ensino de história, que pode “engatilhar” temas relacionados a questões da atualidade de forma poderosa. Ao estudar a Revolução Francesa, os alunos não apenas memorizam datas e nomes, mas discutem conceitos como cidadania, direitos humanos e revoltas populares. Isso os leva a conectar com eventos contemporâneos, como os movimentos sociais no Brasil ou debates sobre democracia digital. Como aponta o educador brasileiro Celso Antunes em A Sala de Aula e a Formação do Cidadão (2003), a história deve ser ensinada como um espelho do presente, estimulando os alunos a analisarem padrões de poder e injustiça que persistem.
Essa abordagem transforma o conteúdo em um gatilho para o protagonismo: os educandos aprendem a questionar narrativas oficiais, a debater perspectivas diversas e a propor ações concretas, como campanhas contra fake news ou pela inclusão social.
Referências como o trabalho de Maria Regina Benedetti em “Protagonismo Juvenil: Uma Abordagem Educativa” (2016) reforçam que, ao incentivar a participação ativa em discussões históricas, a escola forma jovens capazes de atuar em contextos reais, como eleições ou ativismo ambiental.
Outros autores corroboram essa visão. Em La Educación para la Responsabilidad Individual y Social (2003), Juan Escámez e Rafael Gil enfatizam que os conteúdos educacionais devem promover a responsabilidade, preparando os alunos para desafios éticos e sociais da modernidade. No contexto brasileiro, estudos como o de Louise Alves Machado de Oliveira sobre protagonismo juvenil destacam o papel de espaços como grêmios estudantis para vivenciar essa autonomia. Essas referências bibliográficas nos lembram que o protagonismo não é inato, mas construído por meio de práticas pedagógicas intencionais.
Para concluir, proponho uma atividade prática que exemplifica essa abordagem: um júri simulado com o tema “Política em Roma Antiga e Política Hoje”. Essa dinâmica pode ser realizada em sala de aula com alunos do ensino médio, divididos em grupos para simular um tribunal.
Juri simulado
Um grupo atuará como “promotores”, defendendo que elementos da política romana – como o Senado, as assembleias populares e questões de corrupção (exemplificadas por figuras como Júlio César) – influenciam diretamente a política contemporânea, citando paralelos com o Congresso brasileiro, eleições e escândalos atuais.
O outro grupo, como “defesa”, argumentará as diferenças, destacando evoluções como o voto universal e a separação de poderes modernos.
Um terceiro grupo formará o “júri”, avaliando argumentos com base em evidências históricas e atuais, e decidindo um “veredito”.
O professor media, fornecendo fontes como textos de Cícero ou artigos jornalísticos recentes.
Essa atividade não só aprofunda o conteúdo histórico, mas também desenvolve habilidades de argumentação, pesquisa e debate, fomentando o protagonismo ao mostrar como o passado ilumina decisões presentes.
Ao final, os alunos refletem: “Como eu posso ser protagonista na política de hoje?”
Que essa reflexão inspire educadores e famílias a verem a sala de aula como um espaço de empoderamento. Até a próxima!
Referências Bibliográficas:
- Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.
- Dewey, John. Democracia e Educação. São Paulo: Nacional, 1916 (edição brasileira).
- Antunes, Celso. A Sala de Aula e a Formação do Cidadão. Petrópolis: Vozes, 2003.
- Benedetti, Maria Regina. “Protagonismo Juvenil: Uma Abordagem Educativa”. In: Educação e Juventude. São Paulo: Editora XYZ, 2016.
- Escámez, Juan; Gil, Rafael. La Educación para la Responsabilidad Individual y Social. Madri: Narcea, 2003.
Foto principal: imagem gerada por IA
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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