Por Telma Elorza
Nas redes sociais e nos programas de TV, uma cena vem se repetindo com força: mulheres (em geral, com muita grana sobrando) embalam bonecas que parecem bebês de verdade. Os chamados bebês reborn viraram febre no TikTok, no Instagram, no YouTube e na TV. Tem gente comprando carrinho, berço, fralda, mamadeira, tem gente fazendo parto de bebê reborn…. tudo pra cuidar de um boneco como se fosse um recém-nascido. E claro, tudo filmado e postado, com direito a likes e comentários emocionados. Só que, enquanto isso, milhões de mulheres de verdade enfrentam uma maternidade que não tem filtro bonito, nem tempo pra teatrinho.
Vamos ser sinceros? Isso é só mais um aspecto do privilégio que algumas pessoas têm e não sabem o que fazer com ele.
Enquanto influenciadoras ganham seguidores e MUITO dinheiro mimando bonecos que custam mais de R$ 2 mil, mães reais estão se virando nos trinta pra dar conta de casa, trabalho (quando têm), filho doente, escola, e ainda lutam com o básico: comida na mesa, transporte decente, saúde. O Brasil está vendo o desemprego subir de novo. Só em 2025, os números mostram: são mais de 8,5 milhões de pessoas sem trabalho. E muitas dessas são mães solo, sem rede de apoio, sem pai presente, sem segurança nenhuma.
Quem tem tempo e dinheiro pra brincar de maternidade fake claramente vive em outra realidade, muito mais cor de rosa e bonita.
Mas tem algo muito errado conosco quando a gente dá mais palco pra uma fantasia de bebê do que pra crianças reais que não têm o que comer. Quando o algoritmo favorece vídeos de bonecas sendo “adotadas” enquanto, na vida real, crianças são abandonadas, negligenciadas ou criadas por mães exaustas e sozinhas. E aqui entra outro ponto que quase ninguém fala: a paternidade ausente, que é quase regra por aqui. Dados mostram que mais de 5,5 milhões de crianças no Brasil não têm o nome do pai na certidão de nascimento. Isso deveria gerar tanto burburinho quanto os vídeos fofinhos de bonecas “filhas”.

O problema não é o bebê reborn em si. É o que ele esconde
Cuidar de um bebê reborn pode ser uma forma de lidar com traumas, perdas ou questões emocionais ou psicológicos — isso precisa ser respeitado. Mas o que estamos vendo hoje vai além. É um modismo que disfarça o vazio e evita discussões sérias. Enquanto influencers empurram carrinho com boneca no shopping, mães reais empurram carrinho de feira com moedas contadas, no fim da feira para economizar. Isso não é “entretenimento inofensivo”, é mais uma cortina de fumaça num país que já vive anestesiado por distrações.
A pergunta que fica é: por que a maternidade real, difícil, suada, cansativa, não viraliza tanto quanto a de mentira?
A resposta talvez esteja no desconforto. Falar da mãe solo que acorda às 4h pra preparar o almoço dos filhos (e o seu próprio) antes de ir trabalhar e ainda ouve julgamento por estar cansada não dá curtida. Falar da fome, da desigualdade, do abandono paterno, incomoda. Já o vídeo da moça mimando um boneco com coisas que os mortais comuns só podem sonhar, esse sim dá engajamento. A gente precisa repensar o que está sendo consumido, promovido e valorizado. Já não bastasse o jogo do Tigrinho com o qual influencer enchem os bolsos e levam milhares ao vício e à falência. Não é sobre acabar com o reborn, mas sobre lembrar que o Brasil tem problemas muito mais reais e urgentes do que isso.
Enquanto o foco estiver nos bonecos, os filhos de verdade e que precisam de ajuda continuam invisíveis. Até quando vamos dar palco para essas superficialidade? Até quando vamos ficar discutindo essas besteiras?

