O dia em que um artigo de opinião ajudou a fazer justiça para os Kaingangs

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Por Telma Elorza

Há momentos em que o jornalismo dá uma volta tão grande que o repórter quase se assusta. Em 1999, eu fui à inauguração do Centro Cultural Kaingang Wãre, para fazer uma reportagem para a Folha de Londrina. Fiz o que o ofício pede: acompanhei a cerimônia, ouvi discursos, voltei para a redação e escrevi a matéria. Eu não sabia que, 27 anos depois, aquela história poderia voltar e ajudar a comunidade Kaingang numa ação judicial. E voltou com uma ironia deliciosa.

Mas deixa explicar direitinho como tudo aconteceu e como foi minha participação para que os advogados dos Kaingangs conseguissem, nesta semana, uma tutela provisória de urgência cautelar suspendendo o cumprimento de sentença e todos os atos de execução, desocupação e remoção das famílias que hoje residem no Wãre.  

Enquanto o Município tentava tratar o Wãre como uma ocupação clandestina e desalojar as famílias, eu publiquei o artigo de opinião “Wãre: quando a cidade esquece a própria história”, no dia 10 de junho. Ali, contava que estive na inauguração do local, em 1999, fazendo uma reportagem para a Folha de Londrina. Fui testemunha ocular da inauguração oficial feita pelo então prefeito Antônio Belinati.

Minha memória é ótima para os fatos da cidade. Enquanto a maioria dos jornalistas de Londrina já se esqueceu desse e de outros acontecimentos em Londrina, eu me lembro de muita coisa.

Foi o que bastou para o Movimento Popular AntiCorrupção “Por Amor a Londrina!” se pôr numa busca incessante para encontrar essa matéria feita por mim. Até orientei um dos integrantes do movimento sobre onde poderia encontrar jornais da época. O Movimento achou essa e outra reportagem –  do Jornal de Londrina, feita pelo colega Walter Telle, sobre o mesmo assunto: a inauguração oficial do Wãre  – junto ao acervo hemerográfico do Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade Estadual de Londrina.

Com isso, a Justiça viu que a história que o Município contava sobre invasão – para desalojar as famílias Kaingangs do Wãre – não era real. Real era a construção do local com dinheiro público, com a parceria da Funai, a inauguração oficial e a entrega oficial do local ao povo Kaingang. E deu a tutela provisória para eles.

Decisão beneficia Kaingangs

A decisão do Tribunal Federal da 4ª Região, proferida em 26 de agosto de 2026, é cristalina ao analisar a nova documentação apresentada na ação movida pelo líder Kaingang Renato Kriki Ka Mrem. Entre os documentos juntados estão o Alvará de Licença para a construção do centro, expedido pela Prefeitura, em setembro de 1998; o Termo de Visto de Conclusão, de abril de 1999; e a Lei Municipal nº 9.261/2003, que autorizou recursos para reforma e ampliação do Wãre.

Mas há algo ainda mais significativo para mim, como jornalista. A decisão registra que esse conjunto de documentos foi “corroborado pelo acervo de imprensa contemporâneo, de abril de 1999”. E conclui que a prova demonstra que foi o próprio Município quem planejou, custeou, construiu e inaugurou o Wãre naquele local.

Traduzindo para ficar bem claro: foi provado que os Kaingangs não são invasores. A Prefeitura os colocou ali. Com projeto, com dinheiro público, com obra, cerimônia, inauguração oficial e discursos. Eu e o Telle -além de outros órgão de imprensa – estávamos lá para registrar.

Foi justamente essa memória que recuperei no artigo do dia 10 de junho. Escrevi esse artigo não porque alguém me procurou pedindo, mas porque me dei conta de uma coisa constrangedora demais: Londrina se esqueceu da própria história.

Só que memória, quando encontra documento, vira evidência.  Na decisão, o desembargador afirma que a posse do Wãre pelos indígenas era – e continua sendo – totalmente “justa e de boa-fé”, originada de ato legítimo de habitação e fomento praticado pelo próprio poder público. Também considera juridicamente contraditório que o Município tenha construído moradias e equipamentos para acolher a comunidade e, décadas depois, tente caracterizar aquelas mesmas pessoas como ocupantes clandestinas.

Não sei se eu, algum dia, imaginei que uma reportagem minha de quase três décadas atrás pudesse ter uma vida tão longa. Mas, com certeza, eu não pensei que meu artigo de 2026 pudesse vir a ajudar num processo judicial. Talvez uma das funções mais importantes do jornalismo seja essa: impedir que o poder público reescreva a própria história a seu bel prazer e prejudique comunidades inteiras.

E, sim, estou orgulhosa da minha participação nessa história, eu ajudei contra uma injustiça. Mas estou mais orgulhosa ainda do pessoal do Movimento Popular AntiCorrupção “Por Amor a Londrina!” que viu, no meu artigo do dia 10 de junho, a prova que faltava para mudar uma história que já estava praticamente perdida. Isso enche o coraçãozinho peludo de uma jornalista – há 40 anos – de alegria.

Foto principal: Movimento Popular AntiCorrupção “Por Amor a Londrina!”

Telma Elorza 

É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.

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