Por Telma Elorza
O primeiro ano de mandato do prefeito de Londrina, Tiago Amaral (PSD), foi tudo, menos discreto e eficiente. Eleito sob o discurso de modernização, desburocratização e promessa de uma gestão técnica e resolutiva, o prefeito encerrou o período com um saldo marcado por conflitos administrativos, crises políticas e polêmicas que deixaram uma má impressão na população da cidade: o de um gestor que está mais preocupado com as mídias sociais que com os verdadeiros problemas da cidade. Ou seja: falou (e postou) mais do que entregou serviço.
As polêmicas foram muitas, principalmente na área financeira e social. Embora tenha conseguido aumento significativo nos salários dos secretários e do vice-prefeito (que continua uma figura apenas decorativa), ainda antes da posse, o prefeito mexeu com os brios da população ao promover um extra a alguns desses secretários, logo no início do mandato. Logo depois, no entanto, negou aumento a professores dos CEIs. Anunciou cortes de orçamento, tirou dinheiro (R$ 17 milhões para ser exata) do orçamento da Assistência Social, mas Amaral não deixou de fazer viagens internacionais com o dinheiro público.

Uma das crises mais emblemáticas envolveu o transporte coletivo urbano, já quase no final do ano. A relação entre a prefeitura, a Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) e as concessionárias virou um campo minado. O episódio mais grave ocorreu quando a empresa Londrisul anunciou que não anteciparia o pagamento do 13º salário dos funcionários, alegando atrasos nos repasses do município. A resposta do prefeito foi dura, transferindo a responsabilidade para a empresa, mas sem oferecer uma solução imediata ao usuário do sistema, que continuou enfrentando ônibus lotados, horários irregulares e um serviço que há anos clama por revisão estrutural, como mostrou a Folha de Londrina.
O problema se agravou quando veio à tona a investigação da Polícia Civil sobre a contratação, por dispensa de licitação, de uma empresa para auditar a planilha tarifária do transporte coletivo. A suspeita é de que empresas ligadas ao mesmo grupo familiar tenham apresentado orçamentos semelhantes, levantando dúvidas sobre a lisura do processo. Embora a prefeitura tenha alegado urgência, o episódio reforçou a percepção de improviso e fragilidade administrativa, além de expor a gestão a mais um desgaste público.
E para encerrar o ano, o prefeito decidiu instituir validade nos passes do transporte coletivo para até um ano. Assim, depois de 12 meses, o dinheiro não usado, vá para o caixa da prefeitura para reduzir futuros impactos no reajuste da tarifa. Ou seja, querendo surrupiar na cara dura um valor que é do usuário, pago por ele (até o vale-transporte é descontado parcialmente do salário do trabalhalhor).
As críticas também vieram com força da imprensa alternativa e dos blogs locais. O Paçoca com Cebola foi um dos mais contundentes ao apontar decisões consideradas contraditórias, como a demissão de inspetores de pátio das escolas municipais para posterior contratação de empresas terceirizadas para executar um serviço que, até então, era realizado por servidores. Para críticos, a medida simboliza uma gestão que corta na base e terceiriza soluções sem apresentar ganhos claros para a população.
Amaral e o Banana de Pijamas
Ah, antes que me esqueça: dinheiro para Assistência Social não tinha, mas para decorar o Lago Igapó com o Papai Noel Banana de Pijamas mais feio do mundo, tinha. E anunciou sua entrada para o Guiness Book como se fosse uma grande ação estruturante. Também anunciou a realização, na cidade, do Campeonato Nacional de Jet Ski. Eu preferiria que tivesse anunciado que indústrias estivessem prestes a se instalar em Londrina. Infelizmente não foi o caso.
Além disso, a gestão tem sido acusada de priorizar regiões mais centrais e valorizadas da cidade, enquanto bairros periféricos seguem enfrentando problemas históricos de infraestrutura, mobilidade e acesso a serviços públicos. Embora a prefeitura negue esse viés, o sentimento de desigualdade aparece com frequência nas críticas publicadas tanto na imprensa quanto nas redes sociais.
Outro ponto que pesa contra o prefeito é o estilo político adotado. Desde a campanha, Tiago Amaral se mostrou combativo, reagindo a críticas como se fossem ataques pessoais ou eleitorais. Esse comportamento se manteve no cargo. Em vez de diálogo técnico e respostas objetivas, muitas vezes a gestão opta pelo confronto, o que dificulta a construção de consensos e desgasta a relação com setores da sociedade civil e da própria Câmara Municipal.
Saúde e a “herança problemática”
Na área da saúde, uma das principais promessas de campanha, os avanços foram tímidos. Pesquisas de avaliação indicam que a população ainda sente falta de melhorias no atendimento, redução de filas e fortalecimento da atenção básica. O discurso de “herança problemática” da gestão anterior segue sendo usado como justificativa, mas começa a perder força à medida que o tempo passa e os problemas persistem.
Essas pesquisas apontaram aprovação acima de 60% em parte do ano, mas esse número escondeu um dado relevante: a desaprovação mais que triplicou em poucos meses. Segundo levantamento divulgado pela Folha de Londrina, a rejeição à gestão saltou de cerca de 11% para mais de 30%. Áreas sensíveis como saúde, emprego, limpeza urbana e atendimento social figuram entre as mais mal avaliadas. Ou seja, o prefeito ainda tem apoio, mas o crédito político começa a diminuir rapidamente.
Ao final do primeiro ano, o governo Tiago Amaral não pode ser classificado como um fracasso absoluto, mas tampouco se sustenta como uma gestão transformadora. O saldo é de uma administração politicamente barulhenta, operacionalmente frágil e excessivamente defensiva. Para um prefeito que prometeu eficiência e inovação, o que se vê até aqui é uma gestão mais preocupada em administrar crises do que em entregar resultados.
Esse segundo ano será decisivo. Ou Tiago Amaral sai do discurso e apresenta soluções concretas para problemas antigos ou corre o risco de ver a paciência do londrinense acabar bem antes do fim do mandato. Aliás, a título de curiosidade, ele já está sendo chamado de Playboy Amaral nas redes sociais. Eu prefiro Prefeito Reborn. Mas, numa democracia, vence a maioria, né?
Foto principal: Tiago Amaral no dia da posse/crédito: Emerson Dias/N.Com
Telma Elorza
Jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.
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